Caminhando...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 14 de junho de 2012 at 20:15

Nestes últimos dias muitas coisas ocorreram em minha jornada e, evidente que me coloquei num exercício de reflexão em busca de significados e ou num processo de aprendizagem, para quem sabe de alguma maneira, ser ou tentar ser um humano melhor. Isto é, compreender o que estava a minha volta. Ora, é desta maneira que tenho conduzido minhas práticas, e, pensando na metáfora jogo e vida do sociólogo Pierre Bourdieu, quando sinaliza a necessidade de conhecer as regras do jogo e jogar.
Bem, outro sociólogo Peter Berger diz: “Aliás, pouquíssimos cientistas afirmariam hoje que só se deve olhar o mundo cientificamente. O botânico que examina um narciso não tem nenhum motivo para contestar o direito do poeta de olhar a flor de uma maneira muito diferente. Há muitas maneiras de jogar o jogo. A questão não está em negar os jogos de outras pessoas, e sim em ter-se uma ideia clara das regras do próprio jogo. Por conseguinte, o jogo do sociólogo emprega regras científicas”.  (BERGER, 2010, p.26)
Entretanto, como aborda Max Weber o humano em suas esferas sociais e ou teias numa perspectiva de Clifford Geertz, exerce ação social que possui significados distintos (a exemplo da piscadela). Ou seja, o humano é relacional, e, mesmo sendo estudado e observado de forma fragmentada para uma melhor compreensão, somos um complexo, uma totalidade, uma integralidade. Logo, sociedade e indivíduo são refletidos de maneira distinta entre os clássicos das ciências sociais. Nesse sentido, a contribuição de Norbert Elias, a meu ver é de extrema relevância: somos uma sociedade de indivíduos e indivíduos que são sociais.
Assim sendo, tive uma experiência muito marcante que foi falar em três cultos ecumênicos onde estudantes estavam agradecendo pela vida, às famílias e a Deus por mais uma etapa vencida (é claro que não há uniformidade entre o que se pensa sobre: vida, família e Deus). Porém, é para ter? Bem, penso que não! E, por isso minha gratidão em ter participado com outros líderes nestas atividades tanto na UEFS (Engenharia de Alimentos e Engenharia Civil), como na UFRB (Jornalismo). Contudo, nesses espaços senti a falta de representantes das religiões de matriz-africana. Por que isso aconteceu? Evidente que temos sinais de possíveis respostas para essa questão, embora não seja objetivo tratar deste tema agora. Entretanto, é tempo de rever essas práticas excludentes que demonizam o povo de santo. Registro minha indignação.
Bem, algo que nos marcou bastante foi o nascimento de CLARICE (filha de Júnior e Val), nasceu com oito meses e com algumas dificuldades (sobretudo de respiração). Pense em um dia das mães conturbado! A fé, os telefonemas, as idas e vindas, à noite sem dormir, a esperança, a dúvida, o choro... Parecia não ter fim aqueles dias onde o nosso “barquinho” parecia naufragar.
Tentar ser forte quando você está acabado por dentro é complicado. No entanto, ao ver aqueles olhares descendo lágrimas... Ora, de alguma forma tinha que oferecer meu ombro. Uma coisa é dizer e ou crer que a vontade de Deus seria estabelecida. Entretanto, se a vontade de Deus não confirmar com a minha, o que fazer? Ora, tínhamos que nos preparar para tudo e, imaginar isso é muito doloroso. Penso que não é a questão de não ter fé que CLARICE poderia sair daquele hospital, e sim de entender que na vida nem tudo se explica com fé e razão... Logo, buscamos e construímos significados no nosso processo sócio-histórico a fim de se viver melhor.
Por último, porém não menos importante, a delícia que foi participar do congresso que a Faculdade Unida de Vitória promoveu... A conferência do Nordeste 50 anos depois. Meu Deus, obrigado por este presente! Como fui desafiado por aquele evento em que humanos doaram suas vidas em prol de uma da justiça e contra toda dominação. Ora, o exercício de rememorar é de extrema relevância para que possamos nos conhecer e nos perguntar: porque escolhemos este e não aquele caminho? Quais os desdobramentos da Conferência do Nordeste? A juventude conhece essa história? Houve exageros neste evento há 50 anos? Essas e tantas outras questões a meu ver podem e devem ser feitas.
Desta maneira, o diálogo precisa ocorrer entre a Igreja e a Sociedade... Porém, o que é que se entende por estes temas? Como e onde surgirá este diálogo? Às vezes tenho a impressão que ele ocorre mais de uma forma hierarquizada e salvacionista por parte dos intelectuais. É este o caminho? Acredito que não, por isso a alternativa para esta questão é assumirmos uma perspectiva dialógica e polifônica. Ou seja, uma dialética, uma reciprocidade entre esses “mundos”.
Logo, sem dúvida alguma os desafios são tantos e, às vezes a esperança parece que se vai... é quando quase que inesperadamente, o coração enche-se de vida novamente e buscamos efetivamente uma espiritualidade que passe pela diaconia, é quando encontramos o Jesus de Nazaré no partir do pão, no abraço, no respeito, na luta pelo cumprimento de direitos, na flor do jardim, na brisa que chega, na luta de um povo que se reinventa criativamente contra os opressores... em tudo isso, percebe-se a prática da fé, a gratidão pela vida e a implantação do Reino de Deus.
Assim, acredito que o ato de rememorar não pode somente produzir um saudosismo... Porém, deve ir além, e criticamente temos que encontrar novos caminhos para novas demandas que estão diante de nós. Com isso, não quero dizer que as questões de 50 anos atrás não nos dizem nada hoje, o que aponto é que temos velhos e novos “dragões” e que devemos pegar nossa “arma” e subir no “cavalo’ para derrotá-lo. Pois, somos sujeitos históricos e sociais e devemos buscar as ferramentas adequadas para o nosso jogo.
Abraço Fraterno
Cláudio Márcio