Precisamos continuar com o protesto...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On sábado, 22 de setembro de 2018 at 20:00




Meu nome é Vinicius Pinheiro. Sou formado em Serviço Social pela Universidade Federal do Recôncavo. Atualmente estou cursando o mestrado em Serviço Social no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Sergipe. Atuo nas temáticas da Religiosidade/Espiritualidade na interface com a Saúde Mental e o Serviço Social. Milito pela democracia, pelo Estado de direito, por um Estado laico, pela igualdade de gênero, pelo diálogo inter-religioso, contra o racismo e contra o fascismo latente no contexto brasileiro.
Conheço a Igreja Presbiteriana Unida há cinco anos. Sou de origem religiosa pentecostal e fundamentalista. Meu ingresso no contexto universitário me aproximou da natureza santa da crítica. A dialética me permitiu analisar minha fé e fazer sínteses na direção de um diálogo com sujeitos excluídos e estigmatizados. Pouco tempo depois deste contato com a teoria crítica não fui mais bem-quisto em minha comunidade religiosa de origem, afinal “[...] a rebeldia é como o próprio pecado da feitiçaria” (I Sm. 15:23).
O contexto universitário também me permitiu conhecer uma figura fundamental para meu ingresso na IPU: O Rev. Cláudio Márcio Rebouças. O testemunho secular que essa figura deixou como perfume nos espaços em que ocupava me alcançou na universidade. Sim! Surgiu na universidade a possibilidade de retomada a uma comunidade de fé. Bendito seja esse “Rei” que sai às “ruas e esquinas” para convidar os que não merecem para as Bodas de seu Filho (Mt. 22:1-14).
Conheci o mano Cacau. Conheci seu testemunho secular. Conheci sua empatia e compromisso com segmentos excluídos da sociedade e das nossas igrejas. Enfim, me uni a este legado!
Mediado por esta figura conheci a história da IPU, sua característica de resistência, dialógica e ecumênica. Fui apresentado a figuras como Richard Shaull, Rubem Alves (o pastor e o não pastor) e João Dias. Conheci o legado de Jaime e Paulo Wright. Me constrangi diante de uma história tão viva, densa e progressista, enquanto passei boa parte da minha vida alienado no evangelicalismo brasileiro, pensando que o reino tinha apenas isso para nos oferecer.
Nesse sentido, a contribuição da IPU para o protestantismo brasileiro, sem dúvida, é a de lançar luz sobre o caráter diverso (no sentido teológico e ideológico) do movimento protestante. A IPU nasceu num contexto de ditadura - “[...] do lixão nasce flor” (Racionais Mc’s). A história nos deve a valorização dos quadros que romperam com a IPB, sofreram a perseguição e lutaram por uma sociedade democrática e mais humana. Estávamos ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns na construção da denúncia compilada no Brasil: nunca mais. Nossa democracia, HOJE ESCARNECIDA E AMEAÇADA, foi regada com sangue IPU.
Precisamos continuar com o protesto. Precisamos continuar com o diálogo. Precisamos discutir com coragem a questão da inclusão dos segmentos excluídos da sociedade – me refiro à comunidade LGBT. Precisamos servir os pobres e sentar-nos à mesa com os oprimidos. O desafio da IPU é estabelecer esse diálogo, realizar pastorais que discutam questões étnico-raciais, de gênero e de classe. Nosso desafio é fomentar o brilho nos olhos da utopia que se perdeu com o advento do neoliberalismo, da dívida pública e da farra dos bancos.
Ademais, o diálogo inter-religioso precisa ser mais trabalhado em nossas comunidades. Tendo a nossa história como baliza, não podemos fazer coro aos discursos de ódio direcionados às religiões de matriz africana. “Que estou fazendo se sou cristão?” Precisamos agir neste contexto de ódio, fomentando o diálogo e a paz. O caráter ecumênico de nossa comunidade de fé é um dos maiores encantos que tenho com a IPU, todavia, ainda precisamos capilarizar a ideia do diálogo inter-religioso neste contexto de ódio-fundamentalista-fascista.
Deus não é neutro, “vigia os ricos, mas ama os que vêm do gueto” (Racionais M’cs). Tampouco podemos ser.

IPU: fé-luta

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 20 de setembro de 2018 at 04:41



Entrevista concedida ao TEOLOGANDO NA SERRA sobre os 40 anos da IPU...

Sinalize um pouco sobre sua vida, isso é: nome, formação, profissão e o que mais lhe for necessário.

Sou Queila Patrícia Pereira de Jesus; tenho 25 anos e moro em Muritiba/BA, cidade onde “fui nascida e criada”. Sou Assistente Social formada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Há quanto tempo você conhece a IPU? Como ocorreu esse contato?

Cresci em uma Igreja vinculada ao ministério Batista, com características bem distintas da IPU. Conheço a IPU de “ouvir falar” há muitos anos. Confesso que carregava ideias preconcebidas em relação à instituição IPU, as quais foram sendo desconstruídas a partir das leituras de textos do Rev. Cláudio (neste blog) e idas esporádicas aos cultos. Após alguns desencantos com a perspectiva teológica que orienta o “meio evangélico” no qual eu estava inserida, tomei a decisão de vincular-me à IPU (no primeiro semestre deste ano – 2018). Meu desejo era fazer parte de uma Igreja comprometida com a justiça social; com as demandas dos oprimidos. Estava à procura de uma espiritualidade libertadora.

Qual a contribuição da IPU para o protestantismo brasileiro?

A IPU possui um conteúdo claramente político em sua formação que, em especial, encontra-se expresso no Manifesto de Atibaia e no Pronunciamento Social de 1978. Nesse sentido, acredito que uma das maiores contribuições da IPU para o protestantismo brasileiro é a afirmação/concretização da união indissociável entre fé e luta. Além disso, mantêm-se uma postura de valorização e respeito “ao outro”, que afirma uma identidade cristã e ecumênica.   

Quais as maiores dificuldades da IPU para os próximos anos?

            Acredito que uma das dificuldades é manter as dimensões de denúncia e anúncio, como o Rev. Cláudio aponta de forma contínua em suas reflexões em nossa Igreja local. A IPU é uma instituição aberta ao diálogo; atenta às demandas sociais (dos oprimidos); mantém uma postura crítica frente às amarras do fundamentalismo religioso; entre outros aspectos. Portanto, é presente um caráter de denúncia. Entretanto, precisamos (de modo contínuo) construir estratégias de anúncio da espiritualidade libertadora; de um “Deus que é leve e ri”.
            Outro desafio é o investimento em estratégias pedagógicas que estimulem a “identidade IPU” em nossas crianças e adolescentes. Desse modo, estaremos cuidando de nosso futuro e preservando a essência. 

Sinalize encantos e desencantos da IPU.

A democratização dos espaços na Igreja é um elemento que se revela na comunidade IPU. Digo isso porque é notável o protagonismo das mulheres em sua construção. Nos Princípios de Fé e Ordem, por exemplo, A IPU adota e reconhece sem qualquer sentido de hierarquia e sem distinção de sexo, raça e origem social os seguintes ministérios decorrentes do chamado de Deus: pastor(a); presbítero(a); diaconisa e diácono.
Nessa perspectiva, um dos aspectos que me encantam de modo especial na IPU são as propostas de resgate da figura feminina na Reforma Protestante, na Bíblia e na vida cotidiana (como em outras denominações).  
            Penso que os demais encantos já foram sinalizados. Para finalizar, desejo que sejamos valentes para enfrentar os desafios em uma sociedade complexa e dinâmica. Que o vento do Espírito sopre em nós!


IPU: uma nova forma de ser igreja

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On segunda-feira, 17 de setembro de 2018 at 18:14


Por: Anita Wright Torres[1] 

No dia 10 de setembro de 1978, na cidade de Atibaia, SP, um grupo de homens e mulheres se reuniu, sonharam e pensaram em “uma nova forma de ser igreja”. E assim nasceu a Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas (FENIP), com seus documentos fundantes, como o “Manifesto de Atibaia”, do qual destacamos: “declaramos que é nosso desejo prosseguir na obra do Reino de Deus, dominados pelo Espírito de Cristo, em harmonia e alegre comunhão uns com os outros, paz e respeito mútuo. Expressamos nossos propósitos nos seguintes termos: declaramos que é nosso propósito edificar nova comunidade onde reine o amor e a consagração à obra de redenção do homem e não interesses humanos subalternos, indignos daqueles que fazem profissão de fé cristã”.
Outro documento fundante é o “Pronunciamento Social”, advindo da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), aprovado em seu Supremo Concílio em 1962 e logo engavetado por ela. A FENIP resgatou e adotou o Pronunciamento Social como sua, e ainda de mãos dadas com o Hino oficial da IPU, que nos questiona: “que estou fazendo se sou cristão?”.
O Pronunciamento Social diz que compete às Igrejas Presbiterianas: 1- Dar, pelo púlpito e por todos os meios de doutrinação, expressão do Evangelho total para redenção do homem e da sociedade; 2- Incentivar a “cidadania responsável” de todos os membros da Igreja; 3- Clamar contra a injustiça, a opressão e a corrupção; 4- Opor-se contra o materialismo e o secularismo; 5- Lutar pela preservação e integridade da família e pela integração de grupos marginalizados; 6- Dar uma formação cristã à infância e à juventude; 7- Defender a dignidade do trabalho; 8- Fazer a proclamação dos princípios éticos do Evangelho; 9- Defender a distribuição equitativa da renda, inclusive da propriedade da terra e advertir aqueles que estão se enriquecendo ilicitamente, explorando seu próximo; 10- Conscientizar o Estado de todos os seus deveres, prestigiando suas ações no estabelecimento da justiça social.
E assim, essa “nova forma de ser igreja” foi se consolidando em cima de alguns pilares que são a base de nossa igreja: 1- Somos uma igreja reformada, sempre se reformando. Nossos Princípios de Fé e Ordem tem sofrido modificações nesta caminhada de 40 anos. Devemos estar abertos a avaliação e mudança, colocando em debate nossas ações, nosso ensino, nossa pregação, nosso evangelismo, nossa diaconia, nossa missão, buscando assim, à luz da Palavra de deus, reformar para melhorar sempre.
2- Acreditamos na Unidade na Diversidade. Deus não nos criou iguais, mas pede que tenhamos unidade. Em João 17.21, Jesus pede: “Que todos sejam um... e no v.23. Eu estou unido com eles, e tu estás unido comigo; para que eles sejam completamente unidos...”.
            A diversidade enriquece e dá um colorido especial à nossa igreja. Santo Agostinho nos orienta: “No que é indiscutível, unidade, na dúvida, liberdade; acima de tudo, porém, que prevaleça o Amor”.  3- Nossa igreja acredita no sacerdócio universal de todos os crentes, ou seja, somos todos\todas chamados\chamadas por Deus para desenvolver nossos dons ministérios. Fomos a primeira igreja no Brasil a acolher e eleger mulheres em todos ministérios ordenados da igreja (diaconisas, presbíteras e pastoras, e em 2011\ demorou 33 anos!), elegeu em Assembleia sua primeira moderadora e que, em 2017 foi eleita para sua segundo mandato. 4- Somos uma igreja solidária a medida que respondemos ao questionamento do nosso hino oficial: “ Que estou fazendo se sou cristão?”. A IPU adotou o compromisso social como linha de ação da igreja, denunciando a injustiça e opressão, promovendo a solidariedade, mostrando assim o Amor de Deus. 5- Somos uma igreja ecumênica, baseado em Efésios 4:3-5, que diz: “Façam tudo para conservar, por meio da paz que une vocês, a união que o Espírito dá. Há um só corpo, e um só Espírito, e uma só esperança para a qual Deus chamou vocês. Há um só Senhor, uma só Fé e um só batismo...”.
            A IPU já nasce ecumênica, e tem marcado presença em organismos e eventos ecumênicos, como o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), o Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), Aliança de Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina (AIPRAL), Aliança Mundial de Igrejas Reformadas (AMIR), Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).
            Nossa gratidão à Deus por esta Igreja, sua caminhada, suas lutas e vitórias na busca em fazer a diferença no mundo. Nossa gratidão pela vida de tantos homens e mulheres que gestaram essa igreja com fé, garra, determinação, oração e trabalho. Que possamos somar nossas vozes a um hino antigo que diz: “O mestre nunca cessarão meus lábios\ de bendizer-te, de entoar-te Glória\pois eu conservo de teu bem imenso\ grata memória”.   
            Que possamos trazer a memória o que nos alegra, nos faz bem, nos traz esperança.  Vamos somar forças para vencer os desafios, diminuir os conflitos através do diálogo, dividir os problemas, para que possam ser superados e multiplicar as alegrias e bênçãos de sermos parte desta igreja. Nossa oração final vem também de um hino: “Fortalece a tua Igreja\ Ó bendito Salvador\ Dá-lhe tua plena graça\ vem renova seu vigor\ Vivifica, vivifica\ Nossas almas, oh Senhor!
            Que Deus nos abençoe, nos inspire e nos fortaleça para mais 40 anos! Amém!





[1]  Anita é presbítera e Moderadora do Conselho Coordenador da IPU Nacional. Essa reflexão foi feita no dia 07-09-18 em BH em função dos 40 anos da IPU.