segunda-feira, 15 de julho de 2019

Quem é o meu próximo? (Lc 10.25-37)




Por: Cláudio Márcio

Quem é o meu próximo? Essa é uma  questão central para nossa caminhada enquanto cristãos reformados e ecumênicos na América Latina, pois, durante muito tempo, fomos tratados como corpo objeto que podia ser vendido, escravizado, brutalizado, acorrentado, humilhado e massacrado sem piedade alguma. Ter ou não ter alma? Humano ou não humano?
O processo civilizador cristão, machista, branco, europeu (com a Bíblia na mão e a cruz que se transformou em espada) gerou muita violência e opressão para povos originários e africanos. Sabe-se que em nome de deus, da ciência, da economia, da modernidade e da tecnologia, grupos sociais subjugaram outros grupos e muito sangue foi derramado. Aqui não cabe saber quem é mais ou menos culpado, mas, faço apenas um convite para uma reflexão mais séria e complexa que precisa ser estabelecida. Há redes construídas dentro de processos históricos e sociais e a bíblia, por exemplo, fez parte da construção do ocidente com muitas ambivalências de vida e morte.

Numa abordagem sócio-antropológica, é possível afirmar que cada grupo social possuí suas regras e paradigmas de socialização, isto é, seus ritos de passagem, seus valores, suas múltiplas formas de viver e interpretar o cotidiano. Com efeito, há uma diversidade de expressões culturais que deve ser respeitada e garantida no processo histórico.
Entretanto, é importante ressaltar que segundo o sociólogo francês Émile Durkheim: “ao classificar algo você hierarquiza”, assim sendo,  o modelo europeu foi imposto como superior e naturalizado ao longo dos anos. Todavia, há e sempre haverá, resistências e maneiras de (re)criar a vida e as relações sociais.
Uma das formas de resistir é a partir da releitura do texto sagrado dos cristãos, logo,  o que está escrito na Lei? Como lês? Não basta pertencer a tradição e ou ler a bíblia. O questionamento de Jesus é de extrema relevância para nossa interpretação hoje, pois, sem dúvida alguma, a narrativa bíblica desafia-nos mais uma vez para o dilema da alteridade. Como ser cristão e não viver em solidariedade? Como ser cristão e não defender a causa dos imigrantes? Como achar que é normal gays sangrarem até a morte? Como se conformar com o extermínio da juventude negra? Como ficar em silêncio diante de mulheres que são agredidas?
Em MT 23.27-39 há uma denúncia da espiritualidade superficial, fétida e aparente que mata os profetas e rejeita o colo amoroso de Deus. A experiência de Jesus de Nazaré é um grande convite para nossa conversão, ou seja, o amor precisa vencer o ódio. É preciso aprender a perdoar, a mudar, a recriar, a seguir. O outro é o espelho da nossa humanização mútua, isto é, o convite de Jesus é para uma espiritualidade da solidariedade, do cuidado, da compaixão e do serviço. 
 É necessário agir de maneira íntegra e com empatia, uma vez que: “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”(Gl 3.28).
            Irmãos e irmãs, a responsabilidade que temos é muito grande, todavia, sabemos também que é uma alegria e um prazer servir ao Senhor. Lembrem-se: não é suficiente ser religioso! O que temos feito com aqueles e aquelas que encontramos no caminhar? Encerro com um fragmento do diálogo dos personagens Chicó e João Grilo no filme O Alto da Compadecida: “Jesus às vezes se disfarça de mendigo pra testar a bondade dos homens”.




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