segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

SOBRE CURA E AMOR...

Por: Cláudio Márcio[1]
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior é o amor” 
(1 Cor. 13.13).

Há uma canção da banda de Reggae Ponto de Equilíbrio que sugere que devemos estar “armados com a cura e o amor\ regue a vida com mais amor”. Achei extremamente pertinente essa perspectiva por duas razões. A primeira diz respeito aos discursos de ódio no campo da religião e da política em solo brasileiro, o qual tem se acirrado gerando feridas múltiplas em diversos sujeitos sociais, isto é, a capacidade de alteridade e busca de diálogo tem (por vezes) se fragilizado como se o OUTRO fosse um “inimigo a ser eliminado”. Já a segunda razão refere-se a um estímulo externo, haja vista que acabo de ler a Autobiografia de Martin Luther King organizado por Clayborne Carson.
Ora, escutei esses dias meu amigo o presbítero-seminarista Júnior Amorim dizer: “a armadura de Golias não serve para Davi”. É verdade! Qual tem sido nossa armadura? Não estou falando de “batalha espiritual” e ou “soldados de Cristo” na maioria das vezes promovido por neopentecostais perante grupos do campo religioso afro-brasileiro[2]. O que é lamentável e inadmissível! Suspeito que é preciso aprender a sentar-se à mesa da partilha, da solidariedade, do respeito mútuo, uma vez que, o OUTRO (também) sou EU.
Confesso que uma das coisas que mais me chamaram a atenção na leitura da autobiografia supracitada foi a não figura heróica e poderosa, mas, a humana cheia de limitações. Perceber nas cartas de Martin Luther King, os medos, as indecisões, as frustrações, as decisões equivocadas... O que estou dizendo é que em meio ao “mar furioso” do racismo americano foi possível contribuir de maneira relevante para construção dos direitos civis dos negros (as).
Temos desafios incontáveis na família, na política, no trabalho e, não menos, na comunidade de fé. Qual será nossa armadura hoje? Seremos capazes de perdoar mais uma vez? Tentaremos outra vez reinventar a jornada? Irmãos e Irmãs que compõem as igrejas locais do Presbitério do Salvador sejam fortes! Tenham coragem! É com muita gratidão que agradecemos ao Senhor pelo que foi feito por muitas mãos... É com gratidão que nos colocamos disponíveis ao serviço do Senhor desejando com todas as nossas forças que a cura e o amor sejam efetivamente realidades em nosso cotidiano. Como abaliza a oração de São Francisco: “onde houver ódio que eu leve o amor”. Sim, a cura e o amor são dimensões revolucionárias. É com Jesus de Nazaré que aprendemos a defender e celebrar a vida, logo, vos aconselho irmãos e irmãs: “regue a vida com mais amor”.



[1]  Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba (Recôncavo da BA).
[2] Para uma melhor compreensão ver: Vagner Gonçalves da Silva (Org) Intolerância Religiosa: Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro.
Art Suzart
 

sábado, 21 de janeiro de 2017

SOBRE MEMÓRIA E AVIVAMENTO...

Por: Cláudio Márcio[1]
 Irmãos e Irmãs, Deus em sua infinita bondade fez com que nos encontrássemos mais uma vez[2]. Hoje, dia de celebração, dia de festa! Dia de rememorar para avançar! Neste sentido, é preciso refletir sobre a perspectiva da memória. Segundo o sociólogo Renato Ortiz: “As recordações não são nunca límpidas, cristalinas, elas repousam no fundo de uma tela recoberta por camadas superpostas de tinta. Diz-se que o pentimento de um quadro é o vestígio de uma composição anterior, as mudanças feitas pelo pintor, seu arrependimento, encobrem os passos do desenho original. A trilha de seu passado somente é revelada através de uma cuidadosa recuperação arqueológica. Revelar o pentimento da memória é uma tarefa delicada, é preciso cuidadosamente raspar a superfície visível de sua expressão, as marcas que encontramos, ocultas à primeira vista, testemunham uma intenção apagada pelo tempo” (ORTIZ, 2010, p.7).
Conforme abaliza a teórica Ecléa Bosi: “a memória do indivíduo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a igreja, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referências peculiares a esse indivíduo” (BOSI, 1994, p. 54). E ainda: “... na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado... A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor.  O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e do outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista” (BOSI, 1994, p. 55).
Assim sendo, a memória individual existe sempre a partir de uma memória coletiva e a arte de lembrar é engajar uma imagem a outra. Esse será o nosso exercício reflexivo nesta noite, isto é, desenvolver, construir e reconstruir o avivamento da memória. Para isso é importante problematizar: O que queremos lembrar? Quais imagens seriam efetivamente desafiadoras para nossa jornada?  O Texto bíblico de Lamentações 3.21 sugere que devo lembrar o que gera esperança. Logo, é preciso lembrar que somos filhos da promessa de Deus! É preciso lembrar que Jesus Cristo é o Senhor de nossas vidas, famílias e igreja.  Torna-se importante ressaltar como diria o nosso saudoso Reverendo João Dias de Araújo. “Deus nos convida para o grande mutirão da construção do Reino de Deus”. Irmãos e Irmãs, nosso compromisso feito com Jesus de Nazaré é de salgar e iluminar este mundo.
O que queremos lembrar? Que o fenômeno religioso é cheio de ambivalências. O teólogo Rubem Alves falando sobre a religião aponta que “ela se presta a objetivos opostos, tudo dependendo daqueles que manipulam os símbolos sagrados. Ela pode ser usada para iluminar ou para cegar, para fazer voar ou paralisar, para dar coragem ou atemorizar, para libertar ou escravizar” (ALVES, 2003, p. 104). Sim, sabemos que no processo histórico por vezes a cruz se transformou em espada. Quanto sangue derramado, não? Lembrança dolorosa que também nos envergonha, uma vez que, a fé cristã atrelada a interesses civilizatórios e imperialistas fez muito corpo sofrer-gemer. Todavia, para além das denúncias, é preciso apontar para esperança. Como diz a canção de Cartola: “fim da tempestade o sol nascerá”.
O que queremos lembrar? Que no século XVI a fé reformada propõe aos humanos um reencontro com o Divino e consigo mesmo. Um novo sujeito histórico com o livro na mão lançou sementes revolucionárias do Evangelho de Cristo. Bendito seja o Senhor! O livro chegou a nossas mãos. Entretanto, não foi fácil esse processo.
O que queremos lembrar? Somos fruto do protestantismo de missão. Escolas, hospitais, jornais, isto é, muitas foram as estratégias de adaptações ao novo território e ou desejo de evangelização. Uma contribuição significativa em solo brasileiro. Seria o suficiente? Parte da juventude presbiteriana teve contato com o missionário Richard Shaull e numa rede muito mais complexa, uma grande transformação se estabelecia.
O que queremos lembrar? Queremos rememorar a trajetória e influência de figuras como: Richard Shaull, Waldo César, Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, João Dias de Araújo, Josué Melo, Áureo Bispo, Celso Dourado, Ivan Mota Dias, Zwinglio M. Dias, Rubem Alves, etc.
O que queremos lembrar?  Do Setor de Responsabilidade Social da Igreja; Conferência do Nordeste; FENIP; IPU. O que queremos lembrar? Da criação da AFAS (Associação Feirense de Ação Social); SIM (Serviço de Integração do Migrante); CEDITER (Comissão Ecumênica de Direito a Terra). O que queremos lembrar? Que pastores e padres trocavam seus púlpitos. Precisamos lembrar que um de nossos pastores, a saber, o Rev. Josué Melo junto a um camarada pegou a marreta para derrubar o muro que causava divisão no cemitério entre católicos e protestantes.
O que queremos lembrar?  Da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviços) com sede em Salvador.  Através do nome e vida da Reverenda Sônia Mota (Diretora Executiva desta instituição) registro a participação de centenas de mulheres (Diaconisas, Presbíteras, Pastoras e eclesianas da nossa amada IPU).
O que queremos lembrar? Que a IPU é uma comunidade cheia de sonhos! Irmãos e Irmãs, os desafios diante de nós são muitos. Precisamos atualizar a “agenda da IPU”. O que temos a dizer sobre o extermínio da juventude negra no Brasil? Quantos corpos ainda serão ceifados por serem homossexuais? Como encararemos um debate sério e responsável sobre a descriminalização do aborto?  Ter a presença de mulheres em nossas lideranças significa necessariamente que não temos problemas de gênero em nossas relações do cotidiano? Honestamente, não tenho respostas. Entretanto, penso que precisamos como propôs Karl Barth “ter a Bíblia em uma mão e os jornais na outra”.
 O que queremos sonhar? Com o avivamento da memória. Como abaliza um fragmento de Habacuque 3.2 “aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos”. Queremos uma comunidade cada vez mais frutífera, missionária, ética, subversiva, acolhedora. Uma comunidade que aprendeu com Jesus de Nazaré a dizer aos que estão no caminho: fica de pé e vai, ou seja, “não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar”.
O que queremos sonhar? Com uma comunidade responsável, criativa, e com menos medo de encarar os desafios. “Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares” (Josué 1.9). Encerro essa reflexão exaltando a Deus pela vida da IPU. Eu encontrei em cada braço, um pouco do braço de Deus. Irmãos e Irmãs, grato pelo acolhimento. Coragem! Avante, IPU.



[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA.
[2] Como sugere Leonardo Boff “no dito há sempre o não dito”, assim, este texto é parte do que foi refletido na 70ª AGO do Presbitério do Salvador em Governado Mangabeira-BA no dia 07-01-17, com o título: AVIVA EM NÓS AS FORÇAS DA MEMÓRIA- AVANTE IPU!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

SOBRE COCADAS E CROCHÊS...

Por: Cláudio Márcio
Mainha (Iclea) me contou certa vez que na infância vivida no município de Laje (no Vale do Jiquiriçá), tinha duas amigas boas para brincar, a saber: Antônia (tia Tonha) e sua irmã Valdelice (dona Val). Hoje entendo que a vida possui muitos mistérios, uma vez que, o caminho dessas mulheres, assim como o processo de tessitura do crochê, seria feito de um emaranhado de encontros cheios de beleza.
Tanto mainha como tia Tonha foram estudar em instituições religiosas no Recife durante a juventude acreditando em uma vocação para servir ao Senhor de suas vidas, ou seja, Jesus de Nazaré, embora em instituições diferentes. Entretanto anos mais tarde, na cidade de Muritiba no território do Recôncavo da Bahia um grande ponto de intersecção aconteceu. Elas não poderiam imaginar em hipótese alguma que um dia, entre essas três amigas, seus filhos iriam se casar. Casei com Jussi filha de dona Val e ganhei mais uma tia, Tonha como era bastante conhecida.
Mulher dedicada ao cuidado das pessoas, justa, fervente em oração, solidária em seu cotidiano, foi pastora durante muitos anos no município de Varzedo (também na Bahia).  Ali, cuidou de muitas vidas e também, funcionária dos correios, entregou muitas correspondências! Sim, mas a mensagem que ela jamais se cansava de entregar era sobre o amor de Cristo. Lembro-me que quando ela deslocava-se para Muritiba e ou nós íamos lá, era uma festa. Muito amor, carinho e cuidado mútuo nessa relação. Se não fosse o suficiente, tia Tonha sempre cheia de presentes, lindas toalhas, centros de mesa e colchas de crochês e, não menos, uma deliciosa cocada de “lamber os beiços”.
Todavia, como já foi dito, a vida possui seus mistérios. Nossa guerreira tia Tonha adoeceu! Fiz algumas pequenas reflexões em busca de alívio e tentando entender a mensagem de Deus para nossas vidas. Fui tocado em vários momentos: Escutei dona Val dizer ao saber que sua irmã estava doente: “perdi minha irmã”! No exercício da alteridade meu coração se fragmentou em dores por ela, pois, imaginei essa horrível notícia com uma das minhas irmãs. Hoje penso que vida e morte são faces da mesma moeda. O sofrimento é inerente ao humano. A reinvenção da vida também deve ser, não?  É muito triste ter a impressão de que alguém que amamos se vai. Honestamente, creio que a última palavra é a do Eterno mistério que chamo de Deus. Estamos sofrendo! Estamos lutando! Os olhos de Jussi estão carregados de tristeza e sentimento de impotência. Ao escrever agora, meus olhos insistem em segurar lágrimas. Suspeito que tenho que tentar ser “forte” pela turma aqui. Daiana também está sem chão. Parece que o alvo que acreditávamos nos aproximar como horizontes esperançosos de uma nova realidade se desfez. Não sei para onde olhar. Apenas lembro-me:  Deus é meu refúgio. Ele é socorro presente na minha angústia. O nosso redentor vive. Deus seja feita a Tua vontade. Tenha piedade de nós”. (08-12-16)
Meu bem temos vivido dias difíceis. Onde encontrar forças? A dor tem sido uma realidade já cotidiana, contudo, o que mais sentimos neste momento? Ah, eu diria que a solidariedade de amigos e familiares. Sim, cada oração, cada abraço, cada olhar de algum modo tem nos fortalecido. Cartola em uma de suas canções abaliza: “fim da tempestade o sol nascerá”. Tenho acreditado nesses versos, todavia, suspeitando que a tempestade e o sol (assim como eu) já não são os mesmos. Esse fluxo é fixo, ou seja, são experiências inevitáveis na jornada. A questão é de que modo respondemos às dificuldades. Será? Agora me lembrei de uma canção que pode ser minha oração: ‘hoje eu só quero que o dia termine bem’. Estamos juntos nessa, amor. Teu choro também é meu... espero que o fluxo traga logo o riso. (09-12-16)
 Ontem (21-12-16) fomos nos despedir dela que bastante fragilizada foi convidada pelo mestre a fazer sua travessia. A perda foi (é) grande. A dor de despedir-se de quem amamos é avassaladora.  Ontem, vi “Varzedo chorar”. Muitas igrejas, familiares, amigos e amigas dedicaram-se ao cuidado dessa serva de Deus nos seus últimos dias aqui neste chão. Insisto em AGRADECER a cada um(a) que de maneiras múltiplas cuidaram de nossa querida tia Tonha.

Encerro essa reflexão louvando a Deus pela vida dessa mulher. Evidentemente que a saudade não será da cocada e ou do crochê. Esses elementos metafóricos são simbólicos, isto é, são representações de tempo que era doado com disciplina, zelo, cuidado, carinho e, alegria de doar-se a seus familiares e amigos. Bem, para trazer leveza nesse momento de separação, ausência e tristeza, optei pela seguinte representação: “minha linda esposa, hoje nossa tia Tonha foi fazer cocada para Jesus. Enquanto ela colocava os ingredientes na panela e fogão, Ele abriu um lindo sorriso para ela. Suspeito que ambos estão esperando ansiosamente a cocada esfriar para o grande deleite... Jesus, como muitas crianças, pediu para raspar a panela. Tia Tonha rindo disse: ‘sabia que você iria pedir’ (risos)”. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

VOZ PROFÉTICA...

Por: Anita Sue Wright Torres[1]

Foi a defesa da vida e dos direitos humanos que uniu Rev. Jaime Wright e D. Paulo Evaristo Arns, na década de setenta, em plena ditadura militar. A voz profética de D. Paulo já era conhecida quando o irmão de Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, foi preso em São Paulo, em setembro de 1973. Sem ter a quem recorrer, buscou ajuda com D. Paulo.
O drama que parecia familiar se mostrou coletivo, quando a dor de tantas outras famílias era compartilhada com relatos de perseguição, violência, seqüestro, tortura e morte de tantas outras pessoas que buscavam e sonhavam com um Brasil melhor.
O pastor presbiteriano e o cardeal se tornaram amigos e trabalharam lado a lado na Arquidiocese de São Paulo, numa vivência ecumênica e cristã que exercitava a “Teologia das Brechas”, momentos oportunos de fazerem a diferença na vida das pessoas e da sociedade.
E foi assim que pensaram no Projeto “Brasil Nunca Mais”, e conseguiram fotocopiar todos os processos contra presos políticos que na época tramitavam no Superior Tribunal Militar em Brasília. O resumo de todas as informações coletadas e sistematizadas (presos, torturadores, torturas, etc) se transformou em um livro.
D. Paulo e Rev. Jaime receberam vários prêmios no Brasil e no exterior em reconhecimento ao seu trabalho incansável em defesa dos direitos humanos.
Agradeçamos a Deus pelos 95 anos de vida de D. Paulo, por sua dedicação e serviço ao próximo, erguendo sempre sua voz profética quando a vida estava sendo ameaçada e destituída de seus direitos básicos, vivendo “de esperança em esperança”.



[1] Filha caçula de Jaime Wright, Presidenta CONIC-ES e Moderadora do Conselho Coordenador do Presbitério de Vitória (IPU).


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SOBRE CHAVES E FECHADURAS...

Aqui no território do Recôncavo da Bahia existem atributos arquitetônicos que enchem de encanto nossos olhos. É possível ainda salientar que em muitos destes prédios suas portas e fechaduras são bastante trabalhadas com desenhos e traços de extrema beleza, porém, é apenas o acesso às suas chaves que podem nos levar ao outro lado, desvelando os segredos internos de cada espaço. O que há lá na travessia? O que fazer quando nos faltam as chaves? Ter as chaves diante de portas erradas resolve alguma coisa? Já presenciou uma pessoa bastante alcoolizada tentando abrir uma porta?
Evidentemente que não estou interessado em análises sobre formas, tamanhos e composições em que as chaves são elaboradas. Vos digo meus irmãos e irmãs: a metáfora não é do cotidiano apenas, mas, da existência. Ah, vós que acumuleis chaves em busca de prestígio e poder, hoje vossas fechaduras serão trocadas e, de que adianta vosso riso irônico se não podereis entrar? Vossa aparência de alegria é denunciada pelo desespero dos teus olhos. Adiantará chorar? Se tais lágrimas te fizerem perceber e ou utilizar cada chave para seu momento específico, então irmãos e irmãs, choreis copiosamente. Caso contrário, aconselho-vos a parar de atuar.
Honestamente, tenho acreditado que somente uma chave não é suficiente para decifrar os segredos e as combinações da nossa complexa existência, haja vista que são muitas portas (e cada uma delas tem sua própria fechadura) e constantemente as chaves desaparecem, quebram, desgastam... São necessários os chaveiros da fé, da ciência, da fantasia, da arte, da utopia... Embora todos eles sejam também demasiadamente humanos e portanto em certos momentos não conseguirão fazer a cópia de determinadas chaves! Sim, existem portas que continuarão fechadas até que nossa vida terrena seja findada. Mas de fato existem essas portas? Quem as viu?
De qualquer sorte desejo aos irmãos e imãs que não percam suas chaves...
  Muritiba-BA, 13 de dezembro de 2016
Cláudio Márcio


Art Suzart

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

AMANHÃ AINDA É HOJE...


Por: Cláudio Márcio

“Eu tô te explicando pra te confundir. Eu tô te confundindo pra te esclarecer. Tô iluminando pra poder cegar. Tô ficando cego pra poder guiar” (Tom Zé).

Uma canção de reggae de Edson Gomes revela: “há dias na vida que a gente pensa em desistir”. Quais dias são esses?  Ora, pense comigo naqueles momentos difíceis de estudo em que os prazos insistem em nos mostrar que não será possível encerrar a tarefa. Quando se deseja trabalhar e não encontra possibilidades. Quando temos um familiar, um amigo doente em casa e ou no leito de um hospital. Quando o prato na mesa permanece vazio. Quando a cor da pele torna-se mais importante que o caráter, etc. O que fazer quando temos medo de dormir e do amanhecer?
Por vezes pensamos: essa realidade diante de mim poderá ser transformada? Essa questão aparentemente simples tem muitas possibilidades de respostas. No entanto, os nossos pés e mãos não devem desistir das utopias. Como encontrar forças para resistência? Há quem busque auxílio nos fenômenos religiosos; nas ciências; nos movimentos sociais; nas artes...
De fato, sou um homem da fé e da razão. Assumo lutas por justiça social e escrevo em busca de um EU que se perde-encontra nas esquinas da cidade. Confesso minha dificuldade cada vez maior em refletir o mundo à minha volta com uma lupa arranhada, insuficiente, limitada e criar discursos como se as mesmas fossem límpidas, completas e absolutas. Quais os limites e contradições de tais narrativas? A quem se quer enganar?  Como diz Friedrich Nietzsche: “aprendi a andar; desde então corro. Aprendi a voar; desde então não quero que me empurrem para mudar de lugar”.

Gosto do texto bíblico do profeta Ezequiel e sua metáfora do Vale de ossos secos, pois, diante do contexto de caos, de morte e tristeza, uma nova realidade pode surgir. A vida misteriosa brota com força. É nisso que creio, logo, sou semeador de esperanças. Acredito que a força da flor e seu perfume também são dimensões de leveza, encantamento e fantasia para nossa jornada. É possível não ter fantasias?
Art Suzart

terça-feira, 1 de novembro de 2016

SIM, CURTO NOVAS IDEIAS...

“Ontem um menino
Que brincava me falou.
Hoje é a semente do amanhã.
Para não ter medo
Que este tempo vai passar
Não se desespere, nem pare de sonhar...”
(Gonzaguinha)
Por: Cláudio Márcio
Tive a sorte de caminhar com Paulo Ricardo no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (CAHL-UFRB), lá fizemos graduação e mestrado em Ciências Sociais. Carregamos no peito, na cabeça e nas mãos sonhos que direcionaram e continuam desafiando nossos passos e nos dando fôlego... Paulo em especial, “respira política”.
Acredito ser importante e necessário que a juventude ocupe os espaços de debate político para promover novas práticas em um cenário de tanto caos. A fé, o compromisso, a dedicação, o diálogo, a parceria nos fazem entender que é possível construir um tempo novo, isto é, uma nova ordem.
Vejo em Paulo não um herói, de forma alguma. Percebo sim um humano comprometido com o chão que pisa. Percebo alguém aberto para sentar-se na mesa do diálogo. Vejo um jovem experiente que acredita na educação e na cultura como ferramentas de transformações sociais.  Vejo um camarada pronto para ouvir as inúmeras demandas (clamores) dos citadinos muritibanos...
Receber o resultado das urnas neste ano de 2016 de maneira extraordinária (620 votos\ mais votado na sede), tornando-se vereador eleito é a conquista de um sonho. Vi nos seus olhos, nos de sua família, nos de sua noiva Maiara e de muitos amigos-amigas não só a felicidade, mas acima de tudo, ficou perceptível um brilho de esperança. Renovei minha crença e assumo que CURTO NOVAS IDEIAS!
Esperança, esperar, crença, acreditar... Como essas palavras são tão raras e ao mesmo tempo caras em nossa sociedade! Assistimos constantemente a um descrédito absoluto perante a política brasileira, na medida em que as demandas públicas que sempre estiveram atreladas ao mundo privado são manuseadas sem o mínimo de respeito. Mas Paulo Ricardo aparece como o diferente e vai ganhando confiança! Isso significa amigo que apesar das desilusões estamos com os olhos preparados para enxergar a mudança, ouvidos atentos ao som das boas novas, mãos dispostas a trabalhar, mas também bocas organizadas para exigir o desenrolar dos projetos apresentados.
Saiba que estarei aqui orando por você. Também estarei pronto para te ouvir nos dias difíceis e, tenha certeza, não serão poucos. Quando for preciso darei sugestões (um olhar afastado é sempre bom). Estarei também como um eleitor seu te cobrando, pois, sou teu amigo... Fazendo isso, cuido de você e de nossa linda cidade serrana do território do Recôncavo.

Fiquei MUITO feliz por você! Parabéns! Sucesso! Que Deus (Pai-Mãe) oriente sua jornada. Lembre-se da canção: “Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar! Fé na vida, fé no homem, fé no que virá! Nós podemos tudo, Nós podemos mais. Vamos lá fazer o que será”. (Gonzaguinha)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Que Deus (Pai-Mãe) tenha piedade de nós...

“E tudo quanto pedirem em oração, se crerem, vocês receberão” (Mateus 21:22)
Por: Cláudio Márcio
Nos dias 26 a 30-09-16, no templo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da Bahia), situada na Rua Lions Club s\n, das 17h às 18h, experimentamos mais uma semana de oração. Momento simples e belo simultaneamente. Preces, canções, clamores, testemunho, comunhão, gratidões. A fé no cuidado, fidelidade, misericórdia e provisão de Deus eram percebidas em cada voz, em cada mão e, não menos, em cada lágrima no rosto.
Recebemos as visitas dos pastores Benedito Pereira e Jônatas Lopes (Batistas), também a partilha de um belo testemunho do irmão-amigo Sinésio Galvão (Católico), fortalecendo assim nosso compromisso com o diálogo ecumênico. Estes nos trouxeram um breve momento de reflexão sobre a importância da oração na vida pessoal e ou em comunidade.
Vale ressaltar também que em muitos momentos o silêncio nos revelava o encontro com a alteridade, isso é, como sinaliza Rubem Alves: “Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que pronunciamos a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale."
Alienados? Desocupados? De forma alguma! Trata-se de crença no mistério inominável que nos costumamos a compreender como Pai-Mãe de bondade e ternura no olhar. Sim! É uma redução dEle. Todavia, nosso construto imagético de uma representação identitária do Divino enquanto comunidade IPU é de um colo acolhedor e uma voz suave que nos diz: não temais! Estou com você! Essa voz revela-se também na natureza, assim como, na manifestação de homens e mulheres promotores da justiça social no cotidiano.
De fato, como abaliza Martin Luther King Jr, fazendo uma metáfora entre a fé e a escada, ou seja, entre o que é do mundo subjetivo transformando-se em prática objetiva, ele aconselha: “suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo”.

            Como reverendo da IPU de Muritiba, agradeço a cada um(a) por sua visita. Desejo que nossa fé-ação nos humanize mais e, ao mesmo tempo, entendamos que orar pelo “pão nosso” sem capacidade de partilha é uma contradição. Que Deus (Pai-Mãe) tenha piedade de nós.
Art Suzart

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

#SoucristãominhaIgrejaéaIPU

Por: Júnior Amorim[1]

Ontem a Igreja Presbiteriana Unida - IPU - fez 38 anos de existência! Grato a Deus por ter suscitado aqui no Brasil esta comunidade de fé, comunhão, resistência e solidariedade! 
A IPU nasceu no contexto da ditadura militar, quando lideranças e comunidades ainda da Igreja Presbiteriana do Brasil resistiram ao autoritarismo que se deu dentro e depois na sociedade brasileira como um todo! Foram muitas as dores deste parto! Muitos homens e mulheres foram expuls@s de suas comunidades de fé, perseguidos, exilados, alguns mortos pela brutalidade da ditadura militar, por vezes entregues por pessoas da Igreja oficial. Mas da resistência dest@s homens e mulheres, da fidelidade ao testemunho de Jesus Cristo, que foi às últimas consequências em sua coerência ao projeto do Reino e Sua Justiça, desta experiência nasceu a IPU! Da defesa de uma espiritualidade que vincula inseparavelmente a fé às lutas por justiça, por democracia, pela defesa da vida! Que se compromete em promover-viver a unidade entre os crist@s - alternativa à competitividade do mercado religioso! Que busca o diálogo interreligioso e uma cultura de paz - alternativa à intolerância religiosa! Que reconhece a participação da mulher em todos os ministérios! Que assume a responsabilidade de ser voz profética, denunciando as injustiças, as manipulações dentro e fora da Igreja, que se opõe frontalmente à mercantilização da fé, à teologia da prosperidade-ganância, ao fundamentalismo neoliberal com suas Igrejas-empresa, poder econômico-midiático, com sua bancada "evangélica"!
A IPU não dispõe de poder midiático-econômico, nem de membresia numerosa, também tem suas contradições, suas fraquezas, muitos desafios, mas que está aí, perseverando no caminho da integridade, do serviço, da busca de ser coerente com os passos de Jesus de Nazaré.
Rememoro o nome de algumas pessoas de fundamental importância nesta caminhada, como representantes de muitas vidas que se colocaram nas mãos de Deus para que pudéssemos celebrar esta data-história: João Dias de Araújo, Ithamar Dias de Araújo, Áureo Bispo dos Santos, Jaime Wright, Paulo Wright, dentre muit@s outr@s.
A IPU me faz pensar nesta flor de Drummond:Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.]Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. (A flor e a náusea) Que o Espírito Santo de Deus avive em nós as forças destas memórias - como diria o hino - para que possamos perseverar neste caminho de fé-amor-esperança-compromisso com o Reino e sua Justiça!
E que possamos continuar regando-cuidando desta flor-IPU para que ela ajude a trazer beleza-perfume-vida onde quer que esteja! Vamos de mãos dadas!




[1]  Presbítero e seminarista da IPU de Itapagipe em Salvador.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

SIM! AVANTE, IPU!

No dia 10 de setembro de 2016, nossa comunidade de fé, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU), estará completando 38 anos de existência. Um exercício significativo é rememorar as muitas mãos de homens e mulheres, assim como, o desejo profundo de ser sal da terra, isto é, compreendendo uma fé que se traduz em ação transformadora em defesa da vida, uma vez que, o Reino de Deus acolhe e liberta o povo oprimido.
Conheci a IPU a partir do Reverendo João Dias de Araújo quando era seminarista no Seminário Teológico Batista do Nordeste (STBNe), em Feira de Santana-BA. Fomos nos aproximando. Ele forneceu material sobre o início da IPU e, através de orações, conversas e contatos, fui a uma reunião do Presbitério do Salvador (PSVD), e sairia daquela assembléia com a responsabilidade de pastorear a IPU de Muritiba e a IPU de Governador Mangabeira.
Eu, jovem com 23 anos, com sonhos, utopias e, não menos, medos. Esse processo já faz 10 anos. Posso dizer que até aqui o Senhor tem me ajudado! Devido aos estudos precisei ficar apenas na IPU de Muritiba. Aqui, com acertos e erros, tenho servido a Jesus de Nazaré com uma comunidade linda e apaixonante. A partir do chão do Recôncavo, sua diversidade cultural, a Bíblia é lida e relida a partir do sopro do Espírito e das nossas demandas específicas.
De fato, o objetivo deste texto é muito simples, ou seja, quero apenas dizer: obrigado, Senhor por colocar a IPU em minha jornada. Obrigado IPU pelo acolhimento. Desejo honestamente que continuemos comprometidos com o Reino de Deus oferecendo a Ele todos os nossos dons e talentos para edificação da comunidade de fé, assim como, transformar realidades de morte à nossa volta com o anúncio das sementes revolucionárias da ressurreição. A vida em sua pluralidade deve ser mantida e celebrada. Que o Cristo nos ajude! Temos inúmeros desafios à nossa frente. O que iremos fazer? Proponho que com leveza, responsabilidade, criatividade, teimosia na utopia, reinventando-se a partir da fé em Jesus Cristo e orientados pelo Espírito frutifiquemos cada vez mais.
Aqueles e aquelas que amam a IPU e tem se dedicado de diversas formas cuidando dela, obrigado. Por favor, que cada crítica feita e NECESSÁRIA à IPU venham acompanhadas de duas SUGESTÕES de superação. Deus abençoe a IPU nacional, cada Presbitério, cada Igreja local, cada conselho, cada eclesiano e eclesiana.
Que estamos fazendo se somos cristãos? Avante, IPU!
Abraçaço do Recôncavo da Bahia
Cláudio Márcio