domingo, 14 de março de 2021

“Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi que Ele mande mais trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9.38)

 

            Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

O convite de Jesus de Nazaré para segui-lo é algo extraordinário e ao mesmo tempo “assustador”. Extraordinário pelo fato de compreendermos que Ele nos amou primeiro e veio ao nosso encontro para nos salvar e oferecer uma nova perspectiva de existência! Ele é bom pastor, é libertador, é luz que brilhou em nossa escuridão, é pão que alimenta nossa fome. É mistério que nos aproximamos com fé, devoção e obediência.

            Por obediência, devemos refletir sobre a dimensão do “assustador” que envolve essa relação com Deus, pois, nos perguntamos constantemente:  o que Ele quer de nós? Como e quando devemos agir? Quais são nossas limitações e potencialidades? O que estou fazendo se sou cristão? O que significa ser líder reformado ecumênico no século XXI? Essas são questões para serem pensadas com calma, ou seja, não cabe uma resposta apressada. São questões individuais e coletivas. São questões que precisam de respostas corajosas e comprometidas.

Ao observarmos esse contexto histórico pandêmico e o caos político que estamos imersos nós choramos! Sim, “temos sangrado demais – temos chorado pra cachorro”. Lamentamos profundamente tantas vidas ceifadas e um (des)governo a favor do “esquadrão da morte”.  Para lembrar de Edson Gomes (cantor de reggae do recôncavo baiano) podemos dizer: “a lua não é mais dos namorados. Os velhos já não curtem mais as praças” e ainda: “o campo de batalha cheira a morte – no campo de batalha a morte é mais forte”.

De fato, não conseguimos respirar! Como esperançar diante deste caos? Nossa subjetividade anda encontra-se moída e não conseguimos sorrir com força e beleza! Parece que pintaram tudo de cinza e toda gentileza foi vencida por ódio e derramamento de sangue. O nosso silêncio tem sido barulhento e as muitas dúvidas deixam nossos passos inseguros na jornada. Todavia, precisamos lembrar que somos homens e mulheres de fé. Fé madura que não possui todas as respostas. Fé madura que luta e sabe que somos vulneráveis.

            Ora, como pessoas de fé aprendemos com o apóstolo Paulo que devemos desenvolver ‘fé, esperança e amor”. Com o missionário e teólogo Richard Shaull fomos instruídos a “orar, estudar e agir”. O Presbitério do Salvador tem vivido um tempo novo com muitos desafios. Honestamente defendo no que tange aos novos campos missionários que devemos “orar, cuidar e contribuir”. Evidentemente que essas tríades não são receitas prontas ou caminhos que se excluem. Na realidade são como tipologias diante de nós que são adaptadas e avaliadas constantemente como a complexidade da vida.

            É com imensa alegria que o Presbitério do Salvador recebeu nos últimos anos os reverendos Alexandre e Cássio. Agradecemos a Deus pela vida da reverenda Makiko (louvado seja Deus). O casal Gartrell encerrou seu ciclo no Brasil. Também acompanhamos de perto a trajetória do nosso reverendo Amorim Jr. Quanta alegria em nossos corações. A pastora Gabriela chegando processualmente e Deus continuará orientando os próximos passos.

            Com efeito, hoje é dia celebrar a chegada do reverendo Vítor Souza. Os dias são difíceis (não duvidamos), porém, Deus é um manancial no deserto. Deus nos convida: sê tu uma bênção! O reverendo Vítor tem sido uma bênção em nosso PSVD. Muito obrigado, Senhor pela vida do teu servo.

             Desta maneira, seguimos agradecidos (as) e não abrimos mão da teimosia do Evangelho da libertação, uma vez que, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:16,17). Sabemos também que “somos salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9.

            Meus irmãos e minhas irmãs, o CC-PSVD tem percebido o sopro subversivo do Espírito nos dizendo: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:20). E ainda: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça” (Isaías 41:10).

            Nossa fé tem nos revelado a face cheia de amorosidade de Deus. Deus nos convida a semear, porém, uma semente parada no bolso ou num celeiro não dará garantia de boa colheita. Neste tempo difícil experimentado por nós eu quero lembrar a vocês que “os que semeiam em lágrimas segarão com alegria. Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126. 5-6). De fato, não podemos esquecer que “uma planta, o outro rega; mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3:6)

            Pastor Vitor, lembre-se que “todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles... “(Rubem Alves)

            Irmãos e irmãs, Deus ouviu o nosso clamor e tem enviado pastores e pastoras ao nosso PSVD. Que sejamos todos(as) agradecidos(as) e comprometido(as) com o testemunho da Justiça e da paz! Cristo é nossa paz e nos fez unidade na diversidade. Avante, IPU! Bem-vindo reverendo Vítor!


CEBI



[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano). Prédica feita em 14-03-2021 pelo Goolgle Meet  no culto de acolhida do Rev. Vítor Sousa no Presbitério do Salvador.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

TODO MURO É DERRUBADO...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

 

Todo muro é derrubado com ações de fé e coragem

O amor nos move para misericórdia e compaixão

Ao acolher sou imerso na alteridade e na empatia

No rosto de alguém é minha imagem que encontro

 

Todo muro é derrubado com marretadas subversivas

A potência da vida cria na crise e estabelece outra realidade

Na teimosia continuamos a jornada – pão nas mesas e cercas no chão

A mão que ora precisa ser a mesma da luta e da partilha

 

Todo muro é derrubado quando a mesa da comunhão produz riso e acolhimento

Não cabe sentenças, murmúrios, indiferenças e exclusivismos

A beleza da diferença nos revela a face amorosa e plural de Deus

Cores, sons, sabores e cheiros – vem, há lugar para você

 

Todo muro é derrubado quando não limitam o perfume das flores nos jardins

A lagarta vira borboleta e experimenta novos ares

A semente se transformará em árvore com sombra e alimento

Tudo tem seu tempo – acredite: nosso choro um dia será festa

 

Todo muro é derrubado quando somos capazes de escutar e superar preconceitos

A dor de alguém (física ou existencial) precisa ser vista, cuidada e sarada

Um aperto de mão – um abraço – um colo – um beijo na face

A espiritualidade é serviço e afetividade

 

Todo muro é derrubado no contexto quaresmal quando superamos rituais frios

Oração - jejum – autoconhecimento – conversão

Tempo de mudança para encontrar no deserto um manancial

Tempo de lembrar que Ele nos amou primeiro – nos salvou – nos fez sorrir

 

 


 

 

 



[1] Pastor da IPU em Muritiba (cidade serrana do recôncavo da Bahia).

sábado, 6 de fevereiro de 2021

SOU MENSAGEIRO DA ESPERANÇA E FAZEDOR DO ESPERANÇAR

 

Por: Cláudio Márcio R. da Silva[1]

 

O sol briga com as nuvens e hoje irá vencer

Brilhará com a força da recriação como mãe na hora do parto

Dor e beleza dão as mãos como poesia periférica

Do possível caos a nova ordem fé, festa e luta

 

Sou mensageiro da esperança e fazedor do esperançar

Toda nebulosidade é dissipada com luz de dentro e de fora

O mutirão da humanização é por garantia de direitos sociais

No beijo da paz e da justiça o pão e o livro se tornam um

 

Já pegou sua marreta? Derrubamos muros e construímos pontes

Já se sentou na mesa da fraternidade? Ninguém pode ficar de fora

Já afirmou seu lugar identitário? Não negue o do outro

Já falou o suficiente? Agora é hora de ouvir

 

Vamos precisar de muitas mãos com seus saberes e fazeres

Vamos precisar de muitas cores, muitos cheiros e sabores

Vamos precisar de muitos sons que produzam beleza como os pássaros matinais

Vamos precisar de todos e todas que ainda acreditam no amor

 




[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano).

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

REGANDO ESPERANÇA PARA FLORESCER...

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]

Lembro-me de um cartão que meu pai guardava dentro da Bíblia. Ele era comprido como um marcador de página e tinha um lindo botão de rosa amarelo. Mas o que me intrigava era o que estava escrito: Se hoje você vê a flor, agradeça a semente de ontem. Assim, cresci sabendo que precisaria pensar no futuro, agindo com amor, sabedoria, prudência, esperança.

Hoje, atravessando um ano complicado, difícil, pandêmico, fico me perguntando se encontrarei flores em 2021. Mas então, a frase da minha infância me interrompe e questiona: O que você regou? Como agi em meio a pandemia? Fui prudente? Pensei no meu próximo? Escutei o choro e tentei acalmar o desesperado? Respeitei as mortes promovidas pela Covid-19? Se sim, com certeza sentirei o aroma das flores que reguei pelo caminho!

Portanto, continuemos regando a esperança, comprometidos com um ano melhor, um ano em que 2020 não será esquecido, mas representará uma lição de que mesmo quando tudo pareça destruído, quando o jardim não tiver uma flor, lembremos que as sementes estão enterradas, precisando de mãos para regá-las! Quando então florescer as borboletas chegarão, os passarinhos cantarão com força e sentiremos o aroma divino soprando em nossas narinas! Esse será o momento de nascer de novo! Desta maneira, será possível dizer:

 

Agradecer pela terra seca que é morada da resistência

Nela reside a certeza que com água e semente o fruto surgirá

A fome então cessará quando o arado for acionado

E o sol da justiça as demais coisas acrescentará

 

Agradecer pela chuva forte mesmo quando o sonho é de praia

Nela reside a certeza que sempre existirá o manancial

A sede então não assolará quando o pote estiver nas mãos

E o arco íris continuará sendo o nosso referencial

 

Agradecer pelas flores que perfumam o ambiente

Agradecer pelo jardineiro que entregou o seu amor

Se no nosso jardim a gratidão for cultivada

Então a esperança será o semeador

 

Olharemos para a terra seca e veremos a semente

Olharemos para a chuva e enxergaremos a plantação

Olharemos para as máscaras e veremos o sorriso

Olharemos para os problemas e daremos a solução



[1] Presbítera da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

CEBI

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

TU QUE ÉS INVISÍVEL E SE REVELA NO ROSTO DE CADA HUMANO

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

 

Ó Deus, fonte de toda vida e beleza, invocamos sua presença

Tu que conheces nossos medos e dores vem nos socorrer

Ó Deus, neste (re)começo sabemos que És nosso bom pastor que cuida de nós

Tu que sabe onde há pastos verdejantes e águas tranquilas, dirige nossos passos.

 

Ó Deus, compreendemos que nossa vida só tem sentido em Sua presença

Tu que habitas o templo, a praça, as ruas, lembre-se de nossas casas

Ó Deus, aviva nossa memória com Sua misericórdia e amor

Tu escutas, ilumina e orienta nossa jornada, recebe nossa adoração neste dia.

 

Ó Deus, meu camarada e libertador, graças te dou por sua misericórdia que se renova

Nossos corpos cansados da labuta se revigoram com o óleo que vem de Suas mãos

Nossos pés calejados pela travessia foram cuidados com sua amorosidade sem fim

Se recebemos tantas bênçãos do Senhor como ficaremos calados(as)?

 

Ó Deus, Tu que És invisível e se revela no rosto de cada humano

Que não se limitas ao templo, mas, não desprezas o coração contrito

Tu que És mistério profundo e amigo mais próximo que irmão

Que És poderoso e chora com todo oprimido do mundo.

 

Ó Deus, que te darei por todo benefício que me tem feito?

Que estou fazendo se sou Cristão?

Me aproximo de Ti com total gratidão pela cruz que me sarou – salvou

Sabemos em quem temos crido – nossa vida, dons e talentos consagramos a Ti.

 

Ó Deus, na minha escuridão vejo Sua luz - No meu choro acho Seu consolo

No meu cansaço tu me revigoras - Na minha sede Tu és como água de côco

Na minha fome Tu és como delicioso cuscuz matinal

Quando furo os pés no espinho Tu és como mãe que carrega no colo.

 

Ó Deus, quando tenho medo na noite é Sua voz que me faz ninar

Assumo minha fé reformada e ecumênica

Defendo a espiritualidade da diaconia e da libertação

Aqui estou, Senhor! Quero salgar e iluminar esse mundo caótico. Amém!

 




[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

OS ANJOS AQUI NO QUINTAL...

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]

 

Neste Natal diferente em plena pandemia

Olho para a árvore colorida em meio a casa vazia

Não teremos o abraço de amigos nem crianças na correria

Mas confesso Menino de luz, que meu coração será sua estrebaria.

 

Olho para o céu da janela e eis que vejo a estrela guia

Ela pisca com intensidade e anuncia com alegria

Não há caminho para percorrer, evite qualquer agonia

Os anjos aqui no quintal entoam a melodia

 

Glória a Deus nas alturas, o chão que piso virou Belém.

Já ouço o choro que celebra a vida, quero carregar o lindo neném

Não permitirei que os soldados romanos façam de Jesus o seu refém

Venha menino, dou o meu colo, essa casa é sua também

 

Nessa noite vou repousar ao lado da bela manjedoura

Pode descansar querida Maria, do menino serei protetora

Sei que Ele representa a cura, a salvação plena e duradoura

Por isso serei o mago do oriente, os pastores do campo, sua fiel adoradora




[1] Presbítera da IPU de Muritiba-BA.

CEBI

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O MENINO QUE VEM...

 

Por: Augusto Amorim Jr.[1]


O menino que vem

É o Rei da Paz

É o Rei  desarmado

 Sem generais

Imigrante, sem teto,

É Deus entre nós!

 

O menino que vem

Em Belém, em nós

É o Deus encarnado,

Não nos deixa sós

Sobreviveu à sanha

de um império algoz

 

Vem com ternura

Nas trevas irrompe a luz

Traz esperança

Criança, reluz!

 

Vem do futuro

Presença que nos conduz

Vem com beleza,

Sol da Justiça, Jesus!

O menino que vem... vem... e virá...


CEBI



[1] Presbítero da IPU de Itapagipe-BA.

domingo, 13 de dezembro de 2020

ALEGREM-SE, A CURA HÁ DE NASCER!

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]

 

Vem Senhor, vem sem demora,

Mesmo cansados acreditamos na salvação

Aguardamos o menino que chorará a cura

Portanto não temeremos essa imensa escuridão

 

A luz chegará e nos levará ao Messias

Por isso corações, regozijem-se no amor

Por mais que pareça não ter mais sentido

Acreditamos que do asfalto romperá a flor

 

E quando chegarmos ao lado da manjedoura

Quando o pranto transformar-se em celebração

Reconheceremos que o caminho foi árduo

Mas é na fé que reside a libertação

 

Venham comigo, vamos dançar na esperança,

As estrelas apontam, sigamos com retidão

Breve nascerá a cura das nossas vidas

E novamente poderemos desfrutar da comunhão




[1] Presbítera da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano).


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Advento: tempo de discernimento, conversão e esperança

 

Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
Como está escrito no profeta Isaías: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
Apareceu João batizando no deserto e pregando o batismo de arrependimento, para remissão de pecados.
E toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
E João andava vestido de pelos de camelo e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre,
e pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias.
Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

Marcos 1: 1-8

 

O texto deste Segundo Domingo de Advento começa com uma expressão central que às vezes corremos o risco de passar apressadamente por ela. O texto faz referência ao Evangelho de Jesus, o Cristo, Filho de Deus. Esta é a resposta à pergunta que o Evangelho conforme Marcos busca responder: Quem é Jesus? Quem ele é, como viveu, morreu e ressuscitou.

Naquela época, o evangelho amplamente divulgado era o de César, imperador romano. A boa nova mais propagada era de que César era divino, que com sua força militar estabeleceria a paz, a Pax Romana, fundada na exploração através de pesados tributos e da repressão pela força militar. Já de início o Evangelho conforme Marcos corajosamente declara que não é deste evangelho de César que está se falando, mas do Evangelho de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, que veio inaugurar o Reino de Deus, Reino de amor, partilha, cuidado, onde misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se beijam (Sl 85: 10).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

ONDE RENASCERÁ A ALEGRIA?

 

Por: Joel Zeff[1] 

 Alegria é um sentimento “plástico”, maleável: depende muito da visão de mundo que temos. Há quem encontre alegria em coisas superficiais, como um carro novo, ou um título. Há quem seja mais exigente, e cave mais fundo, e se sinta tal qual o poeta maluco beleza: “Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso; Por ter finalmente vencido na vida;
Mas eu acho isso uma grande piada; E um tanto quanto perigosa.”

A verdade é que nesses tempos que vivemos, onde de alguma forma, toda a humanidade teve que encarar seriamente os limites de sua existência, e onde as “distrações” que normalmente utilizávamos para ignorar a complexidade da vida nos foram retiradas, a alegria aparece não mais sendo vendida como uma promessa fácil em comerciais de 30 segundos. Aliás, continuam sim tentando vender. Mas algo nesse ano sombrio faz com que muitos desconfiem seriamente desses artifícios e enganos com os quais nos acostumamos, mas não devíamos.

Isso não significa, porém que devemos sucumbir a um pessimismo cego e imobilizante, pois como diz outra canção “A tristeza é uma forma de egoísmo” – isto é, ficar se lamentando o tempo todo sobre nossas dificuldades pessoais não resolve nada. Há tempo sim para o lamento e o choro – sinal de que não perdemos a empatia, que somos humanos de verdade, e que não estamos entre aqueles que se bestificaram tal qual Caim, que respondeu ante a pergunta Divina: “onde está o teu irmão?” com um tipo, “E daí, eu sou coveiro?”. Não, esse foi outro! Caim respondeu: sou eu o guarda do meu irmão? Mas o espírito do mal perverso e assassino é mesmo em ambas as frases.

Mas enfim, para além da dor, ou em meio a dor é possível renascer a alegria? Onde será que podemos encontrar energias para “ressuscitarmos” das muitas mortes – reais e figuradas – com as quais tivemos que lidar ao longo desse difícil 2020? Estamos no Advento, tempo de anunciar novamente, e mais uma vez, que Deus não está acima de todos: ele está no meio de nós. Ele é o “Emanuel, Deus-conosco”. Sua vinda e sua presença mesmo em meio “as dores do mundo” é fonte principal de nossa esperança teimosa, insistente, lutadora, indignada e esperançosa.

É assim que o livro de Isaías anunciava a um povo que tinha vivido expropriação e cativeiro. “Que todo vale seja aterrado, que toda montanha e colina sejam abaixadas: que os cimos sejam aplainados, que as escarpas sejam niveladas!”. Isaías teimava em sonhar mesmo em tempos de cativeiro: “Eu tenho um sonho” bradou o profeta e pastor Dr. Martin Luther King Jr. Sonhos de equidade racial em meio a uma sociedade dividida pelo racismo dos maus.

É assim que a poeta bíblico anuncia em uma imagem de beleza e afeto corpóreo, que, “Próxima está a sua salvação dos que o temem, para que a glória assista em nossa terra. Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram”. Em tempos de isolamento e distanciamento, ousamos sonhar com abraços e beijos! Corpos em encontros fraternos e sororais, plenitude da vida, prenúncio da alegria.

Ainda não estamos lá, é verdade. Mas o Evangelho nos diz para “preparar o caminho”. E talvez a gente encontre a alegria já aí: na preparação, na expectativa. “Irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra um novo mar, e nesse dia os oprimidos a uma só voz irão cantar” / “Faz-se noite mas eu canto” / “Mesmo escura a noite, brilha a tua luz...”. Sim, na poesia que inventa mundos novos, mais generosos e mais plenos para todas as pessoas, renascerá a alegria.

“Vai passar...”

Joel Zeferino,

Salvador, 04 de dezembro de 2020.

 

 




[1] Pastor da Igreja Batista Nazareth em Salvador-BA.