sábado, 5 de fevereiro de 2022

RESISTÊNCIA NO QUILOMBO...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

 

 

Mulher negra quilombola do Recôncavo baiano

Mulher de fé na vida e nos Orixás

Mulher guerreira de luta e resistência

Mulher da justiça, do amor e da paz

 

Mulher quilombola negra do Recôncavo baiano

Mulher que planta e colhe com gratidão

Organiza grupos, levanta a voz para revolução

Acolhe quem precisa estendendo a sua mão

 

Negra quilombola mulher do Recôncavo baiano

Na ancestralidade identitária o pertencimento no coração

Engenho da Ponte é travessia que gera mudança

Mas na caminhada não há indivíduo, e sim multidão

 

Articuladora política do Cesol Recôncavo

Semeadora de esperança que germina libertação

E ontem eras uma menina que sonhava com o futuro

Hoje és Maria Adabe, doutora do nosso chão

 


 

 

 

 

 

 

 



[1] Coordenador Geral do Centro Público de Economia Solidária do Recôncavo. Texto em homenagem a Articuladora Política do Cesol Recôncavo Maria Adabe, que recebeu o título de Doutora Honoris Causa concedido pela Ordem dos Capelães do Brasil.

domingo, 23 de janeiro de 2022

SOMOS UNGIDOS PARA SERVIR...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

Gosto da espontaneidade das crianças que muito nos ensinam e nos desafiam. Ao sair para entregar kits lanche da Turma da IPUzinha em bairro carente de Muritiba-Ba, eu e Jussi levamos nosso sobrinho como ato pedagógico, almejando inculcar valores de solidariedade e compaixão com pessoas em vulnerabilidade social. Confesso que os olhos dele (Gui) brilham em saber que naquele momento é capaz de cuidar de alguém. Fica feliz e quase eufórico.

domingo, 7 de novembro de 2021

AFIRMAÇÃO DE FÉ


Por: Cláudio Márcio R. da Silva[1]

 

Creio na Graça de Jesus de Nazaré que me acolhe como sou

Creio no colo amoroso de Deus onde posso descansar e ser cuidado

 Creio que não estou sozinho em meio as muitas adversidades do caminho

 Creio numa voz que me chama para promover justiça, paz e misericórdia

 Creio que estou de pé em função que sou sustentado por esse Mistério

 Creio que minha entrega de fé e compromisso é fruto de uma gratidão profunda que me faz sorrir e cantar

 Creio na espiritualidade diaconal e no sopro do Espírito Santo reorganizador de sonhos e utopias

 Amém!

 




[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).


sábado, 23 de outubro de 2021

TÁ VENDO QUE É SÓ O SOL CHEGAR...

 

Por: Paulo Roberto[1]

Sempre gostei da ideia de escrever acerca dos finais de tarde, da sensação de encanto e afeto que me traz a retirada do sol de nosso horizonte... Não sei de dizer ao certo, mas, o que me obstruía de tal intento, quiçá, fosse o fato das minhas lembranças mais remotas acerca dos finais de tarde me trazerem uma significativa carga  de dores e tristezas, em meio as ausências geradas por uma infância pobre. Contudo, mesmo em meio aquele chão sem piso, aquelas paredes que, ainda que pintadas, não escondiam as durezas materiais da pobreza, daquele telhado revestido de telhas velhas, daqueles quartos, tal qual o quarto de despejo de Carolina de Jesus, mesmo em meio a tudo isso, consigo, agora, acessar algo tão bonito, tão palpavelmente sereno e lindo.

domingo, 17 de outubro de 2021

ESPIRITUALIDADE E DIACONIA

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1] 

“...quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo” (Marcos 10:43).        

A narrativa bíblica do evangelho de Marcos 10.35-45 nos convida a prática do serviço, ou seja, nos aponta que aqueles e aquelas que querem ser discípulos (as) de Jesus (o camarada) de Nazaré, precisa estar pronto(a) para servi-lo.

            Ora, em um paradigma societário em busca de visualizações, likes, prestígios e poder, a proposta do Cristo assinala para a capacidade do serviço e cuidado com quem precisa de apoio e encantamento existencial. Os discípulos não souberam pedir e ficaram insatisfeitos com o batismo e o pão eucarístico.

            O que temos pedido a Deus? Como tem sido nosso relacionamento com o Deus da vida? Estamos insatisfeitos(as) com o que efetivamente? É preciso que toda nebulosidade de nossa percepção seja desfeita pelo poder da luz que vem do Senhor. Ele é luz que ilumina nossos caminhos. Experimentar a graça de Jesus Cristo é também se comprometer com o projeto do Reino de Deus de Justiça e paz, isto é, é urgente “abrir a porta e a janela e ver o sol nascer”.

            É importante salientar que a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), instituição de 48 anos que atua em defesa dos Direitos Humanos assumiu com muita responsabilidade essa característica da espiritualidade diaconal. Você conhece a CESE?

            São muitos projetos apoiados em todo território nacional com maior destaque no Nordeste e na Bahia. A CESE percebeu que “o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10.45).

Sem dúvida alguma é possível afirmar que o mutirão que compõe a CESE tem produzido ações coletivas de vida e afastado o “esquadrão da morte”. Meu desejo é que você possa compreender que a relação entre Igreja e Sociedade pode ser melhor quando exercemos uma fé madura e comprometida com a dignidade humana, assim sendo, ore bastante, mas, não “jogue nos braços de Deus” o que é responsabilidade sua. 



https://www.cese.org.br/



[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil em Muritiba (cidade serrana do território de identidade do Recôncavo da Bahia).

domingo, 10 de outubro de 2021

Quem pode ser salvo?

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1] 

A compreensão teológica que temos enquanto “Igreja Reformada Sempre se Reformando”, é que Deus veio ao nosso encontro em uma manifestação cheia de amorosidade para nos salvar, ou seja, Ele nos escolheu e nos separou porque nos amou primeiro.

A graça de Jesus (o camarada) de Nazaré é uma realidade irresistível para aqueles e aquelas que através da fé mergulham no rio misterioso de Deus para se refrescar, sorrir, brincar e celebrar. O convite de Deus está posto e quem tem ouvidos, ouça!

Há quem pense que para mergulhar no rio é necessário cumprir regras, participar de rituais e recitar os dogmas sem cometer equívocos. Pensam que o acesso ao rio é por mérito próprio e, se vacilarem “um minutinho”, serão banidos(as) do banho seguinte.

Bem, suspeito que uma boa questão é: ao ser convidado para banhar-me no rio, tive uma experiência encantadora e cheia de potência de vida, assim sendo, não quero sair deste espaço de pleno prazer e alegria. Minha vontade é convidar aqueles e aquelas que encontro no caminho para se refrescarem também.

            Não fomos convidados ao banho no rio por sermos melhores do que ninguém. Aceitamos o convite e agora é nadar-festejar. Mesmo assim, há quem queira criar pedágios para novas pessoas acessarem o espaço e ou dizem que naquele lugar específico a água é mais cristalina e pura. É preciso desconfiar desses discursos.

            O rio é de Deus e não pode ser represado. O rio é movimento e nos banhamos a partir de uma perspectiva apenas, mas, quem pode medir sua imensidão e conhecer todos os seus mistérios? Acredite, a salvação do Senhor transforma nosso deserto em manancial.

 


 



[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil em Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano).

domingo, 3 de outubro de 2021

UM ABRAÇO TAMBÉM SALVA...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]     

 

“E, tomando-os nos seus braços, e impondo-lhes as mãos, os abençoou” (Mc 10.16).

 

            Muitos (foram) são os desafios impostos a nós como brasileiros pela COVID-19, um deles está no campo do toque no outro(a) e da afetividade. Sim, que falta faz um abraço. Essa dimensão é tão forte em nosso cotidiano que foi (é) muito estranho reencontrar alguém que amamos e queremos bem sem puder beijar seu rosto, tocar em seu braço ou ombro enquanto se conversa e, não menos, oferecer-receber um abraço na chegada e na partida.

            O Evangelho de hoje propõe uma imagem muito bonita, isto é, Jesus de Nazaré acolhendo e abençoando uma criança. Na realidade, suspeito que a capacidade de acolher por si só já é uma bênção. Se naquele contexto bíblico as crianças eram marginalizadas e impedidas de se aproximarem do Reino de Deus por regras e tradições políticas-religiosas, é preciso problematizar: quais grupos sociais hoje são impedidos de acolhimento e afetividade?

            Será que Jesus de Nazaré realmente estaria excluindo e negando abraço a quem só precisava ser amado(a)? Honestamente meu irmão e minha irmã, acredito que não. É preciso fé, coragem, responsabilidade, compaixão e capacidade de lermos a bíblia sempre em defesa de toda vida ameaçada.

            Que nossa espiritualidade seja diaconal e cheia de afetividade. Que o símbolo de Jesus de Nazaré (um Deus encarnado capaz de oferecer dengo aos seus filhos e filhas), seja tão forte como a perspectiva de Senhor e Salvador, pois, um abraço também salva.

 



[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).



domingo, 26 de setembro de 2021

Tempo de Esperançar!

 

Por: Cláudio Márcio R. da Silva

 

Após um bom tempo com a Igreja de portas fechadas devido a essa terrível pandemia da COVID-19 que já ceifou aproximadamente 600 mil vidas em solo brasileiro, aqui estamos reunidos(as) para agradecer o dom da vida e lamentar por todos(as) que fizeram essa travessia (de modo antecipado em muitos casos).

É um tempo difícil e bastante confuso esse. Como sugere Belchior em uma de suas canções “tenho sangrado demais – tenho chorado pra cachorro”. Andar com fé e coragem é o desafio constante em busca de feijão no prato e vacina no braço. Em meio ao choro que insiste em acontecer cotidianamente, sabemos em quem temos crido, ou seja, não estamos sozinhos(as). Jesus de Nazaré nos acolhe como crianças que recebe dengo, beijo na testa e carinho.

  De modo virtual estávamos tentando amenizar a saudade e buscamos fortalecimento permanente através de orações, telefonemas e uso de muita tecnologia.

Retornamos com calma e muito cuidado. É preciso responsabilidade neste (re)começo. Uma coisa é certa: até aqui nos ajudou o Senhor! E nos ajudou com qual objetivo? Ora, não tenha dúvidas, é para a espiritualidade diaconal. É para participarmos do mutirão da defesa da vida que é ameaçada em cada esquina da cidade.

Irmãos e irmãs, que alegria (re)encontrar vocês aqui. Que sejamos sensíveis a voz do Espírito Santo que nos leva para humanização, para o respeito ao próximo e para compreendermos que servir a Jesus de Nazaré é muito mais do que frequentar o templo. Seja aonde e como for, seja uma bênção servindo alguém.

 






sexta-feira, 23 de julho de 2021

OUÇO DEUS ME CHAMAR...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

 

Ao som dos pássaros, ouço Deus me chamar

Quando a chuva rega a Terra, ouço Deus me chamar

Quando uma criança brinca e ri, ouço Deus me chamar

Quando a leitura de um livro me humaniza, ouço Deus me chamar

 

Quando vejo o faminto e oprimido, ouço Deus me chamar?

Quando vejo o racismo estrutural sangrando corpos negros, ouço Deus me chamar?

Quando vejo mulheres sendo subjugadas, maltratadas e vítimas de feminicídio, ouço Deus me chamar?

Quando vejo a população LGBTQIA+ sendo espancada, humilhada e morta por sua sexualidade, ouço Deus me chamar?

 

Quando fecho os olhos em oração, ouço Deus me chamar

Quando leio o texto sagrado, ouço Deus me chamar

Quando canto com fé, ouço Deus me chamar

Quando vou ao espaço sagrado, ouço Deus me chamar

 

Quando indígenas e quilombolas lutam pela garantia da Terra, ouço Deus me chamar?

Quando um terreiro é incendiado por ódio e racismo religioso, ouço Deus me chamar?

Quando falta vacina no braço e comida no prato, ouço Deus me chamar?

Quando uma política de morte é legitimada por um lobo no poder, ouço Deus me chamar?




[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida em Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da Bahia).

sexta-feira, 25 de junho de 2021

ROMPENDO A SURDEZ...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]


Deus que sara feridos(as) e anima cansados(as)

Deus que faz companhia a quem vive em solidão

Deus que brinca com a criança na praça da cidade fazendo ela rir no balanço

Deus que é como sombra de uma grande jaqueira onde é feito um piquenique.

 

Deus que me visita através do beija-flor

Deus que na flor traz beleza e perfume

Deus que junto ao sol traz recomeço

Deus que arrasta o pé ao som da zabumba, do triângulo e da sanfona.

 

Deus que tem percebido nossa tristeza, choro e dor

Deus que chora com mais de 500 mil famílias em solo brasileiro

Deus que se revela nas vacinas e no SUS

Deus que faz milagre com mãos de cientistas.

 

Deus que coloca as mãos através das luvas de profissionais da limpeza e da saúde

Deus que carrega o caixão junto ao coveiro e também acolhe a criança que chora ao nascer numa maternidade

Deus que desafia a Igreja a cuidar dos órfãos da COVID-19

Deus que convida a juntar na prece um punhado de farinha em espiritualidade solidária.

 

Deus que convida os religiosos a abandonarem discursos e práticas de ódio

Deus que chama a humanidade para derrubar muros e seguir no mutirão da construção de pontes

Deus que convida pessoas de dentro e fora das igrejas para o compromisso com a garantia dos Direitos Humanos

Deus que mais uma vez nos diz: é tempo de esperançar!

 

Deus que traz consolo a quem chora e reorganiza os passos

Deus que abre portas através da compaixão empática de homens e mulheres

Deus que no partir do pão nos ensina a compartilhar e não competir

Deus que rompe nossa surdez e diz: estou contigo!

 




[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida em Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).