quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Pés no chão e olhos no céu

 

Por: Cláudio Márcio R. da Silva

Sua luz brilhou iluminando toda minha escuridão

Ri ao ouvir o coral dos pássaros matinais

Vejo borboletas que bailam no ar e anunciam uma revolução de beleza

Crianças empinando pipas com os pés no chão e os olhos no céu


Em que gasta as suas forças?

Que tipo de riqueza procuras?

Qual razão em fazer o que se faz?

Já pensou em (re)criar-se?


Na mesa da comunhão a inveja não será a sobremesa

No copo cheio de felicidade podemos nos embriagar de lucidez

Na hora da partilha é necessário que se promova equidade

A voz que clama no deserto encontra um manancial na sua interioridade

 

Até quando o medo travará seus pés?

Do que vale uma ponte se não faz a travessia?

Se há uma marreta em sua mão deixará prevalecer o muro da divisão?

Uma praga que atinge a lavoura impedirá definitivamente a semeadura vindoura?

 

Creio na rebeldia da ressurreição - sou missionário da esperança

Creio na espiritualidade diaconal – compreendo que o pão é nosso

Creio na caminhada ecumênica – devemos ser um em diversidade

Creio na afetividade reconciliadora – o perdão é um milagre que não depende de Deus

 

 

SUZART

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

MEU QUILOMBO É O SENHOR...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]


Na hora da colheita não se deve dormir

No Pão e no Vinho há fonte de vida

Acolho na memória toda beleza que me faz sonhar

O coração alegre faz o rosto sorrir

Consagro minha vida a Ti


Na humildade se revela toda riqueza divina

O caminho correto não despreza a justiça

Tenho pouco com retidão e não me alimento no banquete do ódio

Mesa farta de iniquidade cheia de risos da opressão

Até quando, Senhor?

domingo, 9 de agosto de 2020

DORMINDO NA POPA COM JESUS

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]

  

Nunca imaginei que um dia

Situação semelhante iria vivenciar

Que em pleno mar tranquilo e belo

Uma tempestade teria que enfrentar


Sim, já havia passado por chuvas

Senti medo, angústia e tensão

Mas logo o sol aparecia

E Deus me presenteava com a solução

 

A oração sempre foi meu escudo

Minha fé era a certeza da vitória

Meu barquinho balançava, eu chorava

Mas Deus mudava o rumo da História

 

Assim naveguei por anos

E vivi muitos momentos de felicidade

O mar era o espelho que refletia o céu

Eu e Deus em plena cumplicidade

 

Mesmo quando tudo era silêncio

Tinha certeza da presença de Jesus

Até a noite em sua nostalgia

Conseguia me encantar com sua luz

 

Eu tinha medo da morte

Da ausência dos que amava

Mas até nisso Jesus com sua graça

Tocava em meu ombro e me preparava

 

Mas hoje Senhor estou inquieta

Não há tempo de me sossegar

Quando penso em clamar-Te por socorro

Sou derrubada por uma onda do mar

 

Não há sol que esquente minha alma

Nem noite que ilumine meu olhar

Choro, clamo, grito e não vejo

Jesus Cristo da popa levantar

 

Cem mil caíram ao meu lado

E já fui atingida com tamanha dor

Agora nem forças tenho para gritar

Para pedir-Te misericórdia Senhor

 

Meus olhos embaçados de tanto choro

Não mais enxergam que estás ali

Dormindo, tranquilo em silêncio

Esperando o tempo certo de agir

 

Não nego, já pensei algumas vezes

Se não era melhor logo naufragar

Mas meu coração mesmo atribulado

Ecoa tua voz e não me deixa vacilar

 

Oh Deus estou exausta

Me acalma, preciso descansar

Não quero que acorde, pode continuar dormindo

Deixe-me apenas ao teu lado, na popa, deitar



[1] Presbítera da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da Bahia).

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

VAI PASSAR?

Por: Cláudio Márcio R. da Silva[1]

 

Vai passar?

Até quando ficará deitado?

Quando se levantará do seu sono?

Ficará de braços cruzados?

Seu propósito é enganar?

É um semeador da discórdia?

Vai passar?

Pés que correm para fazer o mal - rua

Estão prontos para derramar sangue - praça

Perdem o sono se não causarem a ruína de alguém - casa

Se embriagam da violência - esquina

São promotores de divisão - muros

Vai passar!

Parar pra continuar

É tempo de partida

Recriar a chegada

Anunciar a profecia da travessia

Da janela de minha casa vejo as sombras da minha noite

Vai passar!

Preste atenção em minhas palavras

Aceite o que digo

Quando correr – não cairá

Olhe sempre para frente e não abandone quem anda ao seu lado

Veja por onde anda e ficará seguro

Vai passar!

Outro dia vai raiar

Da terra brotará feliz semente

Iremos juntos na ciranda do amor

Sorrir, dançar, brincar

Festejar o beijo da comunhão entre a paz e a justiça



[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida (IPU) de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da Bahia).


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

SOBERANIA DIVINA E RESPONSABILIDADE HUMANA: UMA REFLEXÃO TEOLÓGICA SOBRE A PANDEMIA


Por Rev. Alexandre de Jesus[1]

Em meio a este cenário produzido pela pandemia, tenho me deparado com tentativas diversas de interpretar os acontecimentos. Alguns apelam para o argumento da ira divina e para um horizonte apocalíptico como explicação para tudo isto que nos afeta como humanidade. Mas também tenho sido interpelado por alguns que, em nível individual, perguntam: "Por que Deus permitiu tudo isto? Sendo Ele poderoso, pode pôr um fim a estas coisas, por qual razão não o faz?" Ou seja, honestamente reavivam a clássica questão acerca do mau no mundo.
A tradição protestante reformada busca o equilíbrio entre, por um lado, crer em Deus enquanto soberano e, por outro, não abolir deste horizonte de fé a responsabilidade humana sobre as coisas que resultam de suas ações neste mundo.
Entre os reformados, isto é compreendido como paradoxo. O Deus soberano governa sobre todos os acontecimentos, nada escapando á sua vontade, porém de uma forma que a responsabilidade dos seres humanos não seja abolida, tornando Deus culpado pelo mau neste mundo.
Em não raras ocasiões, ao lidar com este paradoxo, as pessoas enfatizam demais a soberania divina. Como, por exemplo, estes que buscam na ira divina a razão de ser dos acontecimentos desta pandemia. Estabelecem uma lógica meritocrática e constroem argumentos do tipo: pessoas se recusam fazer a vontade de Deus e por isto estão sendo punidas por ele. Mas como ficam aqueles que são julgados como cumpridores da vontade de Deus, uma vez que estes também estão morrendo? Já que o coronavirus não tem discriminado crentes seja de qual religião forem ou ateus, todos estão igualmente morrendo. Se encontramos algum desequilíbrio no tocante a quem está morrendo ou sofrendo devido a pandemia, podemos reconhecer que os mais afetados o são por razões sociológicas que evidenciam o desequilíbrio. Tais como pobres ficando mais pobres e morrendo em maior número como consequência das desigualdades sociais e econômicas, seja para se manterem em isolamento ou seja por, quando se vêem doentes, só lhes restar um precário sistema público de saúde como alternativa.
Este último dado evoca novamente o elemento da responsabilidade humana em contraposição á soberania divina. Condições sociais e econômicas tornam os pobres os mais vulneráveis nesta pandemia, e isto é consequência das ações humanas que historicamente submeteram estas populações a tais condições.
O vírus, outrora, oculto, em florestas e ambientes naturais, foi espalhado pelo planeta, quando humanos começaram a invadir estes ambientes florestais em suas atividades predatórias ou de exploração econômica em larga escala para atender a procura por bens de consumo cada vez mais crescente na humanidade.
E uma vez que o vírus se espalhou, também é de responsabilidade humana, as atitudes de descaso, de minimizações ou de omissões praticadas por governantes na gestão dos eventos desencadeados pela pandemia. Testemunhamos isto na Espanha, na Itália, e agora nos Estados Unidos de Trump e no Brasil com Bolsonaro. Neste último país, após mais de 90 mil mortes, o presidente Bolsonaro cinicamente aparece diante da imprensa com caixas de remédios sem eficácia comprovada para combater a Covid ou mostrando bananas para os repórteres. Por sinal, mantendo-se na mesma linha de ação que assumiu deste o início da crise. Desmantelou o ministério da Saúde, depois do pedido de demissão de dois ministros, deixando até o momento o ministério sob a condução de um ministro interino. Tentando ocultar da população dados sobre a quantidade de mortes e de contágio, agredindo a imprensa, demonstrando desdém pelas vítimas quando interrogado por repórteres acerca do crescente número de mortos. Incentivando aglomerações, sendo péssimo exemplo por não seguir recomendações dadas por epidemiologista para conter a disseminação do vírus.
O teólogo luterano, Paul Tillich, utilizando outros termos, de certo modo, também lida com este paradoxo da soberania de Deus/responsabilidade humana. Tillich propõe os pólos da liberdade/destino, não como se o destino fosse algo previamente determinado, mas como resultado do uso da liberdade.
Diante disto, pergunto: se ao invés de interpelarmos a realidade, seguindo uma lógica de castigo e recompensa oriundos da parte de Deus, identificarmos a nossa responsabilidade em tudo isto que está acontecendo? E também pensarmos a respeito de como escolheremos agir para resolver os problemas, ou seja, escolher o caminho de solidariedade e empatia ou de egoísmo. Ou ao invés de tentar perscrutar o que é misterioso e transcendente numa fulga ou alienação do que está bem evidente diante de nós, devamos responsabilizar a quem tem responsabilidade, exigir tomadas de atitudes diante da crise a quem for responsável por as tomar.



[1] Reverendo da IPU em Aracaju-SE.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

ENTÃO A ORAÇÃO NÃO ESTÁ FUNCIONANDO...


Por: Cláudio Márcio R. da Silva[1]

"Porque não há outra forma de falar sobre Deus a não ser falando sobre nós mesmos. Deus é um espelho no qual a imagem da gente aparece refletida com as cores da eternidade." (Rubem Alves)

Quero compartilhar duas experiências que envolvem a temática da oração. Na primeira, falei a um camarada meu que estava orando por ele quando ele sorrindo disse: “não faça isso não! Você orou por nossa amiga e ela sofreu um acidente de carro”. Rimos bastante e eu insisti: “justamente. Se eu não tivesse orado ela poderia ter morrido”. Já a segunda se deu com uma criança que escutou sua tia dizer: “tá melhor meu filho? Tia ora por você todos os dias e não quer que nenhum mal lhe aconteça. A criança de 4 anos, imediatamente sinaliza: “tia, então a oração não tá funcionando, meu dedo cortou e só parou de sangrar quando eu coloquei o curativo”.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

NOTA: CONSELHO ECUMÊNICO BAIANO DE IGREJAS CRISTÃS (CEBIC) CONTRA ATO DE VANDALISMO AO BUSTO DE MÃE GILDA


 Se alguém disser: amo a Deus e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê (1Jo 4.20) 

Nós, Igrejas e organizações ecumênicas membros do Conselho Ecumênico Baiano de Igrejas Cristãs (CEBIC), repudiamos o ato de vandalismo cometido no dia 15 de julho contra o busto de Mãe Gilda.
No dia 21 de janeiro deste ano, membros do CEBIC tiveram a oportunidade de participar naquele local das comemorações do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e depois foram recebidos/as com gentileza e grande alegria por Mãe Jaciara Ribeiro, filha biológica de Mãe Gilda, no terreiro Axé Abassá de Ogum, em um  testemunho de que o diálogo, a pluralidade e o respeito entre as religiões são possíveis e necessários.  Saber de mais este ato de vandalismo cometido por alguém que dizia atuar em nome de Deus causou-nos profunda indignação e consternação, pois trata-se de mais um ato de racismo religioso dirigido a nossas irmãs e irmãos baianos de religião de matriz africana.

domingo, 12 de julho de 2020

PRESBITERIANISMOS EM DISPUTA: é necessário conhecer quem escolheu o caminho de Shaull


Por: Felipe Costa[1] 

Mais uma vez o presbiterianismo brasileiro está associado a um governo, desta vez ao (des)governo Bolsonaro. O reverendo Milton Ribeiro é o novo Ministro da Educação do Brasil. Presbiteriano da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), o novo ministro é adepto da violência física como forma de educação infantil (o reverendo Ribeiro já está apagando seus vídeos e textos onde fala sobre isso...)
Ao contrário do senso comum em relação ao presbiterianismo brasileiro, há muita contribuição dos presbiterianos, principalmente relacionado à teologia. A quem diga que se não fosse o "boanergismo" que sofreu a IPB, os presbiterianos de 1950-1970 teriam levado o país a um patamar superior no que tange teologia e prática.

sábado, 11 de julho de 2020

A FACE EVANGÉLICA DO BOLSONARISMO É CALVINISTA


Por: Zózimo Trabuco[1]

Quando se fala do conservadorismo evangélico, do voto evangélico na direita ou mesmo da atuação nefasta da bancada evangélica, os comentários quase sempre são direcionados aos pentecostais e neopentecostais.
Embora esse segmento tenha desenvolvido uma prática política fundamentalmente conservadora nos costumes, a maioria dos fiéis pentecostais e neopentecostais, pessoas majoritariamente pobres e negras, não é defensora de políticas de governo anti-populares, mesmo que a bancada evangélica o seja.
O segmento evangélico mais identificado com políticas de austeridade ou anti trabalhistas está concentrado nas chamadas igrejas "históricas" ou "tradicionais", majoritariamente brancas e de classe média.

INQUISIÇÃO SEM FOGUEIRAS: O ONTEM E O HOJE ESTÃO ENTRELAÇADOS


Por: Augusto Amorim Júnior[1]

Inquisição sem fogueiras, clássico do saudoso Reverendo João Dias de Araújo, segue sendo um farol que nos ajuda a enxergar nossa história. Por exemplo, a presença de um pastor presbiteriano no Ministério da Justiça do atual governo, e, hoje, a escolha de um outro pastor presbiteriano, também ligado ao Mackenzie, para o Ministério da Educação é algo que pode ser melhor compreendido à luz deste livro.
Nele podemos entender as relações, desde pelo menos a metade do século XX, do presbiterianismo conservador com os poderes políticos autoritários e excludentes, vale lembrar que a Igreja Presbiteriana do Brasil apoiou a ditadura militar e o Mackenzie está imbricado em todo este processo. O ontem e o hoje estão entrelaçados.