sexta-feira, 25 de junho de 2021

ROMPENDO A SURDEZ...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]


Deus que sara feridos(as) e anima cansados(as)

Deus que faz companhia a quem vive em solidão

Deus que brinca com a criança na praça da cidade fazendo ela rir no balanço

Deus que é como sombra de uma grande jaqueira onde é feito um piquenique.

 

Deus que me visita através do beija-flor

Deus que na flor traz beleza e perfume

Deus que junto ao sol traz recomeço

Deus que arrasta o pé ao som da zabumba, do triângulo e da sanfona.

 

Deus que tem percebido nossa tristeza, choro e dor

Deus que chora com mais de 500 mil famílias em solo brasileiro

Deus que se revela nas vacinas e no SUS

Deus que faz milagre com mãos de cientistas.

 

Deus que coloca as mãos através das luvas de profissionais da limpeza e da saúde

Deus que carrega o caixão junto ao coveiro e também acolhe a criança que chora ao nascer numa maternidade

Deus que desafia a Igreja a cuidar dos órfãos da COVID-19

Deus que convida a juntar na prece um punhado de farinha em espiritualidade solidária.

 

Deus que convida os religiosos a abandonarem discursos e práticas de ódio

Deus que chama a humanidade para derrubar muros e seguir no mutirão da construção de pontes

Deus que convida pessoas de dentro e fora das igrejas para o compromisso com a garantia dos Direitos Humanos

Deus que mais uma vez nos diz: é tempo de esperançar!

 

Deus que traz consolo a quem chora e reorganiza os passos

Deus que abre portas através da compaixão empática de homens e mulheres

Deus que no partir do pão nos ensina a compartilhar e não competir

Deus que rompe nossa surdez e diz: estou contigo!

 




[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida em Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

terça-feira, 18 de maio de 2021

ITINERÁRIO DA ESPIRITUALIDADE

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

Mistério que nos acolhe com braços amorosos e em tua presença  recebemos poder para testemunhar o Evangelho da libertação e servir ao próximo com compaixão.  Em cada rosto da estrada um pouco de ti. Em cada canto de pássaro tua voz se faz ouvir. Quando contemplo a irmã borboleta e o irmão beija-flor não paro de sorrir.

Teu sou eu, Senhor, me consagro a ti. Intercedo por este mundo teu e carente de ti.  Dias difíceis temos vivido, por favor, enxuga nossas lágrimas, segura nossa mão e recria os nossos passos. Queremos caminhar em direção a ti e contigo todos os dias. És como uma grande Jaqueira na cidade serrana do Recôncavo baiano, quero ficar em tua sombra e descansar em ti.

Deus na vida, almejo o dia em que as crianças voltem a brincar nas praças da cidade. Deus da vida, almejo o dia em que as mesas estejam repletas de pão. Deus da vida, almejo o dia em que o pandeiro nos convoque para celebração. Deus da vida, almejo o dia em que não encontre mas um corpo negro sangrando no chão.

 Deus da vida, almejo o dia em que os territórios indígenas e quilombolas não sejam usurpados por mineradoras e pelo agronegócio. Deus da vida, almejamos o dia em que não veremos mulheres violentadas, estupradas e vítimas do feminicídio. Deus da vida, que nenhum gay seja espancado e morto por viver sua sexualidade. Deus da vida, precisamos de uma fé comprometida com a defesa da vida e dos direitos humanos.

Ensina-nos, ó Deus, como igreja e sociedade a viver uma espiritualidade diaconal. Amar e não julgar. A acolher e não silenciar. Ensina-nos, ó Deus, a cuidar e proteger. Que nossa voz seja som de justiça e esperança. Que nossos olhos brilhem ao sermos surpreendidos por tua graça. Que a fé nos aponte ao recomeço coletivo de uma nova humanização.

Escuta Senhor a nossa prece neste dia, pois, fazemos em nome do teu filho, Jesus Cristo, amém.



[1] Rev. da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).


quarta-feira, 5 de maio de 2021

Temos vivido dias difíceis...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1] 

Deus de toda a graça e de toda bondade, te agradeço por esse dia e por tua misericórdia que se renovou sobre minha jornada. Temos vivido dias difíceis e assustadores, assim, clamamos a tua compaixão. Renova a nossa fé e nos faz esperançar, pois, sabemos em quem temos crido. Tu és o nosso refúgio e a nossa fortaleza!  Tu és o nosso libertador!  Tu és o filho de Deus que nos abraçou e nos amou primeiro.

            Quero te servir e te amar para testemunhar o evangelho do cuidado e da afetividade. Me oferece sensibilidade e capacidade de compreender os teus sinais, de modo que, meu corpo e minha cabeça possam descansar em ti. Não sei do dia de amanhã o que pode acontecer, mas sei que sempre estarás comigo. Habita em mim, uma vez que, quero me esconder em ti.

            Sei que tua luz brilhou em minha escuridão e hoje eu canto muito mais. Sei que quando ando em meio à tribulação tu me refazes a vida. Sei que agindo o Senhor ninguém pode impedir. Sei também que posso todas as coisas naquele que me fortalece e que em Cristo Jesus sou mais que vencedor. Quando eu te busco em primeiro lugar as outras coisas me serão acrescentadas, todavia, onde está o Senhor?

Vejo teu rosto na flor, no canto do pássaro, no rosto do humano em total diversidade. Nesta pandemia vejo teu rosto através dos profissionais da saúde, da limpeza, da segurança, da educação. Deus da vida, imploramos piedade pela dor das famílias enlutadas no território brasileiro. Escuta senhor o nosso clamor, pois, fazemos em nome do teu filho Jesus Cristo, amém !

             




[1] Reverendo da IPU em Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

sexta-feira, 9 de abril de 2021

NÃO DÁ PARA JUNTAR COM ESSA SOPA UMA ORAÇÃO NÃO?

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

(Comida – Titãs)

Jesus respondeu: Está escrito:

 Nem só de pão viverá o homem,

mas de toda palavra que

 procede da boca de Deus

(Mt 4.4) 

No filme o Auto da Compadecida há uma cena extremamente desafiadora para superação da dicotomia corpo e alma, uma vez que, o personagem Severino (um cangaceiro) disfarçado de mendigo pede uma esmola na porta da igreja e a liderança religiosa prontamente promete rezar por ele instigando assim o rápido questionamento de Severino: “não dá para juntar com essa reza um punhado de farinha não?”.  É a partir deste lugar que escrevo essa breve reflexão.

domingo, 28 de março de 2021

BENDITO O QUE VEM

 

                   Daniel do Amaral[1]

 

Chegando perto de Jerusalém

Jesus e seus amigos foram procurar

Um animal de boa montaria

Um jumento, burro ou jegue para lhe acompanhar

Os seus discípulos foram então pedir

A um cabra na cidade para emprestar

Um jumentinho, filho de jumenta

Que ninguém tinha montado, pra Jesus andar

Então forraram suas roupas no bichinho

E com Jesus foram seguindo no caminho

E o povo alegre juntou folhas de palmeira

Pra forrar o chão da estrada

E começaram a cantar:

 

Bendito o que vem

Bendito o que vem

Em nome do Senhor

Bendito o que vem

Bendito o nosso rei

Nosso salvador

(BIS)

 

E já entrando em Jerusalém

O povo perguntou: quem é esse rapaz?

Ele é Jesus de Nazaré da Galiléia

Nosso rei, nosso profeta, príncipe da paz

Um fariseu ouviu e não gostou

E quis mandar o povo todo se calar

Mas em resposta Jesus disse para o homem

Se essa gente se calar as pedras vão clamar

 

E foi assim que se cumpriu a profecia

De Zacarias na palavra do Senhor

“Muita alegria, filha de Jerusalém

Vem montado num jumento

O rei justo e salvador”

 




[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida em Brasília.

sábado, 20 de março de 2021

OFERTÓRIO...

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]


Confesso Senhor que nesse ofertório

Queria depositar a desilusão

O choro estampado em cada canto do mundo

Que há um ano é notícia na minha televisão

 

Confesso que no altar deixaria

A angústia que invade o meu coração

Ao ver os órfãos da Covid gemerem baixinho

Sem terem um abraço, um aperto de mão

 

Sim meu Deus, queria entregar-Te

A dor do viúvo, da viúva e do netinho

A ausência que machuca, a saudade que corrói

Quando já não se pode dar e receber aquele carinho

 

Mas Deus como ofertar desesperança

Para quem sempre me deu luz?

Como entregar morte

Para quem me ofereceu a vida em Jesus?

 

Por isso Senhor, hoje quero ofertar

A última gota de força que resolvi guardar

O sorriso escondido atrás das máscaras

E a capacidade que tenho de esperançar...

 

Recebe então paizinho querido

O que oferto com amor

Transforma essa gota em um oceano

E a esperança em uma linda flor!



SUZART "Eu sou flor e lágrima"

[1] Presbítera na IPU de Muritiba (cidade serrara do recôncavo baiano).

domingo, 14 de março de 2021

“Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi que Ele mande mais trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9.38)

 

            Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

O convite de Jesus de Nazaré para segui-lo é algo extraordinário e ao mesmo tempo “assustador”. Extraordinário pelo fato de compreendermos que Ele nos amou primeiro e veio ao nosso encontro para nos salvar e oferecer uma nova perspectiva de existência! Ele é bom pastor, é libertador, é luz que brilhou em nossa escuridão, é pão que alimenta nossa fome. É mistério que nos aproximamos com fé, devoção e obediência.

            Por obediência, devemos refletir sobre a dimensão do “assustador” que envolve essa relação com Deus, pois, nos perguntamos constantemente:  o que Ele quer de nós? Como e quando devemos agir? Quais são nossas limitações e potencialidades? O que estou fazendo se sou cristão? O que significa ser líder reformado ecumênico no século XXI? Essas são questões para serem pensadas com calma, ou seja, não cabe uma resposta apressada. São questões individuais e coletivas. São questões que precisam de respostas corajosas e comprometidas.

Ao observarmos esse contexto histórico pandêmico e o caos político que estamos imersos nós choramos! Sim, “temos sangrado demais – temos chorado pra cachorro”. Lamentamos profundamente tantas vidas ceifadas e um (des)governo a favor do “esquadrão da morte”.  Para lembrar de Edson Gomes (cantor de reggae do recôncavo baiano) podemos dizer: “a lua não é mais dos namorados. Os velhos já não curtem mais as praças” e ainda: “o campo de batalha cheira a morte – no campo de batalha a morte é mais forte”.

De fato, não conseguimos respirar! Como esperançar diante deste caos? Nossa subjetividade anda encontra-se moída e não conseguimos sorrir com força e beleza! Parece que pintaram tudo de cinza e toda gentileza foi vencida por ódio e derramamento de sangue. O nosso silêncio tem sido barulhento e as muitas dúvidas deixam nossos passos inseguros na jornada. Todavia, precisamos lembrar que somos homens e mulheres de fé. Fé madura que não possui todas as respostas. Fé madura que luta e sabe que somos vulneráveis.

            Ora, como pessoas de fé aprendemos com o apóstolo Paulo que devemos desenvolver ‘fé, esperança e amor”. Com o missionário e teólogo Richard Shaull fomos instruídos a “orar, estudar e agir”. O Presbitério do Salvador tem vivido um tempo novo com muitos desafios. Honestamente defendo no que tange aos novos campos missionários que devemos “orar, cuidar e contribuir”. Evidentemente que essas tríades não são receitas prontas ou caminhos que se excluem. Na realidade são como tipologias diante de nós que são adaptadas e avaliadas constantemente como a complexidade da vida.

            É com imensa alegria que o Presbitério do Salvador recebeu nos últimos anos os reverendos Alexandre e Cássio. Agradecemos a Deus pela vida da reverenda Makiko (louvado seja Deus). O casal Gartrell encerrou seu ciclo no Brasil. Também acompanhamos de perto a trajetória do nosso reverendo Amorim Jr. Quanta alegria em nossos corações. A pastora Gabriela chegando processualmente e Deus continuará orientando os próximos passos.

            Com efeito, hoje é dia celebrar a chegada do reverendo Vítor Souza. Os dias são difíceis (não duvidamos), porém, Deus é um manancial no deserto. Deus nos convida: sê tu uma bênção! O reverendo Vítor tem sido uma bênção em nosso PSVD. Muito obrigado, Senhor pela vida do teu servo.

             Desta maneira, seguimos agradecidos (as) e não abrimos mão da teimosia do Evangelho da libertação, uma vez que, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:16,17). Sabemos também que “somos salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9.

            Meus irmãos e minhas irmãs, o CC-PSVD tem percebido o sopro subversivo do Espírito nos dizendo: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:20). E ainda: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça” (Isaías 41:10).

            Nossa fé tem nos revelado a face cheia de amorosidade de Deus. Deus nos convida a semear, porém, uma semente parada no bolso ou num celeiro não dará garantia de boa colheita. Neste tempo difícil experimentado por nós eu quero lembrar a vocês que “os que semeiam em lágrimas segarão com alegria. Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126. 5-6). De fato, não podemos esquecer que “uma planta, o outro rega; mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3:6)

            Pastor Vitor, lembre-se que “todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles... “(Rubem Alves)

            Irmãos e irmãs, Deus ouviu o nosso clamor e tem enviado pastores e pastoras ao nosso PSVD. Que sejamos todos(as) agradecidos(as) e comprometido(as) com o testemunho da Justiça e da paz! Cristo é nossa paz e nos fez unidade na diversidade. Avante, IPU! Bem-vindo reverendo Vítor!


CEBI



[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano). Prédica feita em 14-03-2021 pelo Goolgle Meet  no culto de acolhida do Rev. Vítor Sousa no Presbitério do Salvador.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

TODO MURO É DERRUBADO...

 

Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[1]

 

Todo muro é derrubado com ações de fé e coragem

O amor nos move para misericórdia e compaixão

Ao acolher sou imerso na alteridade e na empatia

No rosto de alguém é minha imagem que encontro

 

Todo muro é derrubado com marretadas subversivas

A potência da vida cria na crise e estabelece outra realidade

Na teimosia continuamos a jornada – pão nas mesas e cercas no chão

A mão que ora precisa ser a mesma da luta e da partilha

 

Todo muro é derrubado quando a mesa da comunhão produz riso e acolhimento

Não cabe sentenças, murmúrios, indiferenças e exclusivismos

A beleza da diferença nos revela a face amorosa e plural de Deus

Cores, sons, sabores e cheiros – vem, há lugar para você

 

Todo muro é derrubado quando não limitam o perfume das flores nos jardins

A lagarta vira borboleta e experimenta novos ares

A semente se transformará em árvore com sombra e alimento

Tudo tem seu tempo – acredite: nosso choro um dia será festa

 

Todo muro é derrubado quando somos capazes de escutar e superar preconceitos

A dor de alguém (física ou existencial) precisa ser vista, cuidada e sarada

Um aperto de mão – um abraço – um colo – um beijo na face

A espiritualidade é serviço e afetividade

 

Todo muro é derrubado no contexto quaresmal quando superamos rituais frios

Oração - jejum – autoconhecimento – conversão

Tempo de mudança para encontrar no deserto um manancial

Tempo de lembrar que Ele nos amou primeiro – nos salvou – nos fez sorrir

 

 


 

 

 



[1] Pastor da IPU em Muritiba (cidade serrana do recôncavo da Bahia).

sábado, 6 de fevereiro de 2021

SOU MENSAGEIRO DA ESPERANÇA E FAZEDOR DO ESPERANÇAR

 

Por: Cláudio Márcio R. da Silva[1]

 

O sol briga com as nuvens e hoje irá vencer

Brilhará com a força da recriação como mãe na hora do parto

Dor e beleza dão as mãos como poesia periférica

Do possível caos a nova ordem fé, festa e luta

 

Sou mensageiro da esperança e fazedor do esperançar

Toda nebulosidade é dissipada com luz de dentro e de fora

O mutirão da humanização é por garantia de direitos sociais

No beijo da paz e da justiça o pão e o livro se tornam um

 

Já pegou sua marreta? Derrubamos muros e construímos pontes

Já se sentou na mesa da fraternidade? Ninguém pode ficar de fora

Já afirmou seu lugar identitário? Não negue o do outro

Já falou o suficiente? Agora é hora de ouvir

 

Vamos precisar de muitas mãos com seus saberes e fazeres

Vamos precisar de muitas cores, muitos cheiros e sabores

Vamos precisar de muitos sons que produzam beleza como os pássaros matinais

Vamos precisar de todos e todas que ainda acreditam no amor

 




[1] Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano).

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

REGANDO ESPERANÇA PARA FLORESCER...

 

Por: Jussiana Silva dos Santos[1]

Lembro-me de um cartão que meu pai guardava dentro da Bíblia. Ele era comprido como um marcador de página e tinha um lindo botão de rosa amarelo. Mas o que me intrigava era o que estava escrito: Se hoje você vê a flor, agradeça a semente de ontem. Assim, cresci sabendo que precisaria pensar no futuro, agindo com amor, sabedoria, prudência, esperança.

Hoje, atravessando um ano complicado, difícil, pandêmico, fico me perguntando se encontrarei flores em 2021. Mas então, a frase da minha infância me interrompe e questiona: O que você regou? Como agi em meio a pandemia? Fui prudente? Pensei no meu próximo? Escutei o choro e tentei acalmar o desesperado? Respeitei as mortes promovidas pela Covid-19? Se sim, com certeza sentirei o aroma das flores que reguei pelo caminho!

Portanto, continuemos regando a esperança, comprometidos com um ano melhor, um ano em que 2020 não será esquecido, mas representará uma lição de que mesmo quando tudo pareça destruído, quando o jardim não tiver uma flor, lembremos que as sementes estão enterradas, precisando de mãos para regá-las! Quando então florescer as borboletas chegarão, os passarinhos cantarão com força e sentiremos o aroma divino soprando em nossas narinas! Esse será o momento de nascer de novo! Desta maneira, será possível dizer:

 

Agradecer pela terra seca que é morada da resistência

Nela reside a certeza que com água e semente o fruto surgirá

A fome então cessará quando o arado for acionado

E o sol da justiça as demais coisas acrescentará

 

Agradecer pela chuva forte mesmo quando o sonho é de praia

Nela reside a certeza que sempre existirá o manancial

A sede então não assolará quando o pote estiver nas mãos

E o arco íris continuará sendo o nosso referencial

 

Agradecer pelas flores que perfumam o ambiente

Agradecer pelo jardineiro que entregou o seu amor

Se no nosso jardim a gratidão for cultivada

Então a esperança será o semeador

 

Olharemos para a terra seca e veremos a semente

Olharemos para a chuva e enxergaremos a plantação

Olharemos para as máscaras e veremos o sorriso

Olharemos para os problemas e daremos a solução



[1] Presbítera da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

CEBI