ÉS DEUS (NÃO APENAS) DOS PATRIARCAS...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On sábado, 9 de setembro de 2017 at 04:35

Por: Cláudio Márcio[1]
O Senhor é meu pastor e de nada tenho falta. Canto ao Teu nome por tua misericórdia e lembro-me de tua fidelidade ao deitar-me. És refúgio, fortaleza. És Deus de João Dias e Ithamar Bueno. És Deus de Sônia Mota e Nelson Kilpp. Ah, Pai-Mãe, És Deus de tantos “Josés e Marias” que vivem em resistência pelos centros e periferias deste chão chamado Brasil.
Sabemos que escutas o GRITO DOS EXCLUÍDOS, pois, teus filhos e filhas encontram em Ti razão para seguirem a jornada. Muitas são nossas aflições. Temos chorado bastante, todavia, percebemos teu cuidado e colo amoroso. Pai-Mãe, quando entenderemos que podemos ser mãos tuas no cotidiano? Até quando ficaremos (apenas) de joelhos em prece? Não chegou a hora de ficar de pé e lutar, irmão e irmã?
Deus bendito, obrigado por Te encontrar não isolado em templos. Te vejo nas ruas e praças da cidade. Te encontro no meio da feira popular e nos campos. Te vejo no meio de camponeses, dos quilombolas e dos povos indígenas em luta pela terra. Graças e louvores ao Deus da vida.
Que eu compreenda que além de teu filho, posso ser amigo e parceiro para construir uma sociedade cheia de justiça e paz. Realizo essa prece na crença da subversão e na ressurreição das utopias corpóreas, amém. Peço a Ti, Parceiro maior, que desperte em cada leitor(a) o desejo de perceber Tua voz inconfundível que pela fé nos diz: “não tenha medo. Estou com você. Ouço tua oração. Pego tua mão. Enxugo tuas lágrimas. Farei você sorrir novamente em breve, vamos?”.




[1]  Reverendo da IPU de Muritiba-BA.

A VIDA É BOA E DURA...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 24 de agosto de 2017 at 05:39

Por: Cláudio Márcio[1]
                                                                                                
Deus (Pai-Mãe) de toda bondade e justiça. Obrigado pelo dia que se abre diante de mim. Cantarei ao Senhor enquanto viver. Tu és a minha alegria. Ah Senhor, muitas são as minhas aflições, meus medos. Todavia, a quem temerei? Percebo teu cuidado e fidelidade. És fonte de amor e esperança.
Hoje, intercedo pela vida de amigos e familiares que estão enfrentando situações que envolvem enfermidades. Tem piedade de nós! Atende a voz do nosso clamor. Sim, Tu podes todas as coisas. Sabemos em quem temos crido. O nosso Redentor vive!  Hoje com os nossos olhos te encontramos.
Senhor, viver é uma bênção e um perigo. Não tenho muitas respostas... O que tenho na realidade é um desejo profundo de continuar caminhando. Até onde iremos? Chegaremos à próxima esquina? Sentaremos à mesa para partilhar mais um pão? Aquele abraço será dado? Honestamente, não sei. Espero ardentemente que sim...
Pai-Mãe, a vida é boa e dura. Precisamos de coragem para seguir, porém, temos a sensação que não temos mais forças. A nossa “bateria” vai se esgotando. O que fazer? Tu és fonte de vida! Vem Espírito Santo (re)organizar nossas vidas. Enxuga nossas lágrimas e nos faz sorrir novamente.
Rogo ainda pelos profissionais da saúde. Misericórdia por aqueles(as) que não possuem um plano de saúde. Intercedo por pessoas que carecem da liberação das burocracias hospitalares. Peço-te que continue agindo através de homens e mulheres que cuidam e encorajam pessoas através de saberes populares. Isto é, não apenas o jaleco, mas, folhas, raízes e chás.
Deus, piedade dos mercenários da saúde. Piedade dos que (pela cor da pele) oferecem um atendimento e ou tratamento diferenciado. Escuta nosso clamor e nos faz compreender Tua vontade. Peço-te Senhor, derrama o óleo em nossas cabeças e nos ensina (também) que nossas mãos podem ser (vez por outra) as tuas. Amém!




[1]  Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA

A CABANA: o filme se fez carne...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On sexta-feira, 18 de agosto de 2017 at 13:06

“Dentre os muitos desafios que temos de enfrentar, um dos mais importantes hoje em dia é o da imaginação de outro tipo de crente. Imaginar, criar imagens de, figurar, desenhar, sonhar, formar” (Júlio Zabatiero)
Por: Cláudio Márcio[1]
Tive a oportunidade de assistir o filme A Cabana (direção de Stuart Hazeldine) e confesso que fiquei bastante indignado. Comecei a me indagar: como é possível líderes cristãos reclamarem dessas releituras imagéticas? Qual o problema de pensar Deus enquanto mulher negra e ou homem indígena, Jesus de Nazaré com características fenotípicas islâmicas e o Espírito Santo como mulher oriental?  Penso que o humano é criatura e criador de símbolos e percepções do mistério profundo que chamamos Deus. Sendo assim, problematiza-se: a quem interessa essa e não outra imagem do Divino?
Nos princípios de Fé e Ordem da Igreja Presbiteriana Unida (IPU), em relação ao texto bíblico diz: “as Sagradas Escrituras são o padrão de doutrina e ética. A IPU reconhece, contudo, diante delas, o direito a diferentes posicionamentos exegéticos e teológicos os quais, sob a influência de condicionamentos históricos, culturais e sob a orientação do Espírito Santo, transformaram-se e se transformam de acordo com as necessidades dos homens e passaram a constituir verdadeiro patrimônio espiritual da Igreja Cristã”. Dessa forma, Karl Barth já provocava: “é preciso ter a Bíblia numa mão e os periódicos na outra”. O Rev. João Dias de Araújo também contribuiu significativamente com a relação do texto sagrado e a questão da terra, da justiça social, da cultura popular brasileira.
Estou lendo o livro Reimaginar a igreja no Brasil (organizado por Clemir Fernandes e Flavio Conrado), nele, Marcos Monteiro abaliza: “ a história do Ocidente caminhou sempre e cada vez mais na relação com a Bíblia, modo complexo de se relacionar, em que a Bíblia ou foi amada ou foi temida (e até odiada), espaço de celebração ou de libertação, mas também lugar de medo e de dor”. Já Paulo Nascimento indaga: “por que nossa relação com a Bíblia não tem a mesma liberdade que Jesus de Nazaré tinha diante dos textos sagrados de sua religião?”.
            Bem, retomando ao filme, não desejando discutir seus aspectos mercadológicos de uma sociedade de consumo, mas, pensando na possibilidade de releitura das Sagradas Escrituras, de fortalecer as teologias emergentes na América Latina, fui extremamente impactado através da linguagem cinematográfica de leituras familiares sobre o Sagrado. Diante de dificuldades existenciais, crises e problemas que muitos enfrentam cotidianamente, outra percepção de si mesmo e do(a) Outro(a) faz a vida ser reinventada. Voltar a caminhar e sorrir. Temos que reler a Bíblia com coragem, responsabilidade e compromisso com a defesa da vida. Magali do Nascimento Cunha como uma das vozes do livro Reimaginar aponta: “fica a mensagem para nós, como igreja hoje, seguidores deste Deus, o totalmente Outro, o Incondicionalmente Outro, que chama peregrinos, estrangeiros, forasteiros, para serem o seu povo. Quem é o outro hoje? Quem são os peregrinos, estrangeiros, forasteiros que carecem de nossa acolhida?
Com efeito, encerro essa reflexão com uma imagem do filme e outra ocorrida esta semana. Tive a oportunidade de representar a Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER) no Encontro Nacional do Fórum Ecumênico ACT Brasil, 14 a 17 de agosto em Brasília. Participam do evento representantes da Aliança de Batistas do Brasil, CEBI, CEDITER, CESE, CESEEP, Christian Aid, CLAI, CMI, Comin, CONIC, Diaconia, FLD, Koinonia, PAD, Reju, SOS Corpo e UNIPOP. Experiência marcante e desafiadora. Fomos para uma vigília em solidariedade aos povos indígenas e quilombolas contra o marco temporal na frente do STF no dia 15. Lá, em diálogo com dois grupos que ali estavam os Guarani Kaiowá (região de Dourados, MS e Guarani Nhandeva da região sul), vi movimentos sociais, pesquisadores, líderes religiosos, jovens universitários, etc.
Fomos abençoados por eles. Ora, sou do território do Recôncavo da Bahia, pensar o rosto de Deus negro é um exercício reflexivo teológico que realizo, todavia, a face dEde no indígena não é tão familiar para mim. Ali, em meio aquela manifestação, vi a face de Cristo. Eu que sou líder religioso, reverendo da IPU, fui capaz de perceber Jesus de Nazaré (também) nos povos indígenas.  No filme Deus aparece como indígena. Na frente do STF, a imagem do filme se fez carne.  Não é exagero algum concordar com Nancy Cardoso Pereira no livro supracitado que: “em nome de Deus profetas e sacerdotes dizem mentiras”. Contudo, o que presenciei no Fórum Ecumênico ACT Brasil, foi o compromisso de organizações em defesa da vida em sua diversidade.    



[1] Reverendo da IPU em Muritiba-BA.

HISTÓRIAS DE VIDA ENTRE A DOR E A ESPERANÇA...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 10 de agosto de 2017 at 06:48

“Jovens, à época, empolgados com as possibilidades abertas para construção de um novo futuro para o país, e, ao mesmo tempo, convencidos do retrocesso político, econômico e cultural sinalizado pela implantação de um regime autoritário, criaram as suas diferentes formas de resistência ao arbítrio      e ao atropelo dos direitos inalienáveis da pessoa humana. Pagaram um preço inaudito por sua ousadia e destemor. Foram vítimas da tortura, da prisão e do exílio... e muitos tiveram suas vidas ceifadas nos porões da violência institucionalizadas” (DIAS, 2014, p.13).

Por: Cláudio Márcio[1]
O documentário Muros e Pontes: memórias Protestantes na ditadura[2] ajuda a refletir sobre a temática do Estado Laico e a função religiosa, pois, propõe desvendar memórias como uma espécie de recontar narrativas experimentadas por jovens protestantes ecumênicos (homens e mulheres) durante o golpe de 1964. Ora, as memórias são modos de articulações entre experiências vividas no fluxo do tempo, portanto, passadas e presentes, ou seja, contar a memória é reconstruir um lugar no mundo produzindo pertencimento político identitário, pois, a memória é produto e produtora de mundo concomitantemente.
Partindo deste pressuposto da fabricação de identidades, quem são esses rostos e essas vozes apresentados no documentário? A função de entrevistador do documentário é do pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e professor universitário, Zwinglio M. Dias. Na realidade, ele ocupa um lugar dúbio, uma vez que, neste processo de múltiplas identidades, ele ora realiza entrevistas, ora oferece o seu depoimento como alguém que também carrega as marcas deste contexto arbitrário militar brasileiro. O documentário oferece histórias de vida com um misto de dor e esperança. Sinaliza ainda um contexto de efervescência política onde as instituições estavam sendo questionadas por seus modelos hierárquicos, muitos líderes religiosos não estavam preparados para serem interrogados e, ao mesmo tempo, de fazer uma ponte entre a fé cristã e as inúmeras demandas sociais do Brasil. Evidentemente que alguns jovens cristãos e ecumênicos estavam dispostos a construir essa suposta ponte.
Assim sendo, refletindo o protestantismo brasileiro é possível problematizar: por que essas experiências de fé, luta, reflexão crítica e engajamento político foram (são) negadas em muitas comunidades de fé? Falta de informação das lideranças? Trata-se de líderes mal intencionados? Por que negar a trajetória e influência de figuras como: Richard Shaull, Waldo César, Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, João Dias de Araújo, Anivaldo Padilha e Rubem Alves?
Uma das formas de tentar responder a esses questionamentos é olhar para a parceria feita entre o Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia e Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, pois, ao desvendar e ou recontar um momento histórico do Brasil e de alguns jovens ecumênicos, muitas narrativas são potencializadas gerando imagens e sons desafiadores para outras gerações. Dito de outra forma, esses depoimentos apresentam-se como contraponto de uma suposta história oficial, uma vez que, esses homens e mulheres trazem no corpo e na memória as marcas de um momento sombrio na política brasileira.
Com efeito, é urgente romper com os paradigmas que não dialogam com a diversidade cultural brasileira. É preciso compreender que existem protestantismos com possibilidades múltiplas de vivência da fé. A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) é um exemplo de uma forma de ser em que a dimensão da fé pode-deve ser efetivada em sindicatos, partidos políticos, ONG’s, etc, logo, criou-se a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e a Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER).
Há um fragmento narrado por Zwinglio M. Dias no documentário em que ele e um grupo eram acusados de “ecumenistas”, ou seja, uma mistura de ecumênicos com comunistas. Desta forma, esses jovens eram vistos como “perigosos” para o ordenamento eclesiástico onde estavam inseridos, assim como, para a ordem política vigente no país. Bem, tenho lido Richard Shaull e Frei Betto, assim, penso ser necessário fazer uma distinção entre uma “bancada evangélica” com características teocráticas e que em nada garantem os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras em nossa “pátria amada”, de uma fé que é práxis libertadora, isto é, uma participação política engajada por justiça social e garantia dos direitos de grupos sociais.
De fato, o documentário traz a memória entre os tantos nomes o do Rev. João Dias de Araújo. De quem se trata? Um líder religioso com formação em teologia, filosofia e direito. Um dos fundadores da IPU. Ajudou a criar o SIM (Serviço de Integração do Migrante), em Feira de Santana-BA. Autor de uma obra clássica para quem estuda o fenômeno religioso protestante brasileiro, a saber: Inquisição sem fogueiras, ou seja, trata-se de um líder religioso extremamente articulado com o solo brasileiro e optou (assim como Jesus de Nazaré), em caminhar com e pelos “pobres”.
            Evidentemente que o processo de rememorização é sintético, pois, o reverendo João Dias foi em vida muito mais do que o dito acima. Logo, como e ou por que ocultar uma trajetória tão relevante e encorajadora? A quais grupos e ou sujeitos sociais interessam o apagamento ou a omissão dessa e tantas outras memórias? Comungo então que as lutas outrora travadas encontram-se atuais, sobretudo porque ainda vivemos com as velhas inquietações abordadas nos fragmentos do que se tornou o Hino oficial da IPU que diz: “Que estou fazendo se sou cristão, Se Cristo deu-me o seu perdão? Há muitos pobres sem lar, sem pão. Há muitas vidas sem salvação. Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo sem dividir: Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar” (OLIVEIRA, 2014, p. 80).
            Essa era a característica das vidas acionadas no documentário: por uma teologia pública crítica e libertadora. Assim, é necessário potencializar essas vozes para que novas práticas possam brotar no protestantismo brasileiro. Lembremos de Rubem Alves quando sinaliza: “Mas os mártires têm aparecido: Gandhi, Martin Luther King, Oscar Romero e muitos outros. Líderes religiosos são intimados, perseguidos, ameaçados, expulsos, presos... Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires e profetas, Deus é o protesto e o poder dos oprimidos” (ALVES, 2003, p. 111).  

REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes - Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.
OLIVEIRA, Nilton, Emmerick. A Militância Política de um Presbiteriano “Comunista”... In: DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes - Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.


[1] Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA.
[2] Documentário produzido em parceria pelo KOINONIA: Presença Ecumênica e Serviço e o projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça entre 2013 e 2014.  Ver: http://koinonia.org.br/

POR UMA ESPIRITUALIDADE NÃO INQUISITORIAL...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 27 de julho de 2017 at 18:06

Por: Cláudio Márcio[1]
Na manhã de domingo (09-07-17), a Igreja Presbiteriana Unida (IPU), na cidade serrana de Muritiba (Recôncavo da Bahia), promoveu um excelente estudo sobre os 500 anos da Reforma Protestante com o historiador, teólogo e filósofo Pr.Jorge Nery. Pensamos a relevância deste fenômeno social e, não menos, suas contradições. Houve uma presença significativa de visitantes da igreja Batista, uma “galerinha” da UFRB e da UNEB.
Desta maneira, é importante salientar como no século XVI na Europa o cristianismo como religião oficial foi provocado por movimentos e sujeitos sociais e, inevitavelmente, a partir de redes interdependentes, rupturas-permanências, uma gênese de um novo paradigma societário se estabelecia.
Ora, naquela conjuntura específica “a Bíblia na língua materna na mão do povo” tinha um tom revolucionário, ou seja, um processo subversivo e descentralizador de uma experiência com o Sagrado. Lembramos da relevância da fé em Jesus Cristo em um período em que as indulgências possuíam características salvíficas. Do sacerdócio universal, isto é, todo mundo é padre de si mesmo.  E as mulheres neste contexto? Qual a razão de tanto silêncio?
Pensamos ainda a complexidade de tal fenômeno com o intuito de não construir heróis, uma vez que, a Reforma Protestante desenvolve-se também mediante relações de interesses, em que príncipes abraçavam aquela nova possibilidade religiosa para não pagarem impostos a Roma. Nesse sentido a Reforma Protestante é simultaneamente: política-religiosa-econômica.  Lembramos ainda que milhares de camponeses anabatistas foram exterminados.
Sabemos que a experiência religiosa é cheia de ambivalências, isto é, ela liberta-escraviza. Refletimos como a Bíblia no processo histórico foi utilizada para dominação. A cruz, por vezes, se tornou espada. Grupos religiosos evangélicos no século XXI reinventaram a prática das indulgências.   O exercício da fé como prática comunitária foi se perdendo em detrimento de uma perspectiva isolada e individualizada com Deus.
Questões importantes foram levantadas e debatidas naquela linda manhã. Abordamos ainda o perigo de uma BANCADA EVANGÉLICA servidora do deus-dinheiro e envolvida (em grande medida) em esquemas de corrupções, pois, querem criar uma teocracia no Brasil. ABSURDO! Vocês não nos representam!
Com efeito, sabemos que com ou sem fogueiras, muitas inquisições foram estabelecidas em nome de Deus, da moral, da ordem. Entretanto, penso que devemos desenvolver uma espiritualidade não inquisitorial, mas, acolhedora e libertadora. Deus tenha piedade dos que se dizem cristãos e votam a favor da negação dos direitos de trabalhadores e trabalhadoras. Irmãos e irmãs: É preciso lutar para além da oração e do voto!



[1]  Reverendo na Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA.

O caminho da espiritualidade não pode ser antagônico ao da humanização

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quarta-feira, 28 de junho de 2017 at 18:02

Por: Cláudio Márcio[1]

“Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados” (Cantor João Alexandre/ fragmento da música: Em nome da Justiça).

Um dia desses, no culto de oração da Igreja Presbiteriana Unida (IPU) de Muritiba-Ba, uma irmã-amiga sinalizou: “difícil não é vir para igreja. Difícil é seguir a Jesus”. Essa frase aparentemente simples me provocou bastante. Sim, a experiência religiosa institucionalizada muitas vezes não significa um relacionamento profundo com Jesus de Nazaré.
Não basta frequentar um grupo religioso. Não basta ocupar um lugar de liderança. Não é suficiente a pontualidade e ou assiduidade nos dias de celebração litúrgica. Penso que a experiência da fé pode-deve ser cheia de leveza, cheia de beleza e fantasia. O caminho da espiritualidade não pode ser antagônico ao da humanização. Não precisamos homogeneizar a relação com o Divino.
Encontro cotidianamente “homens e mulheres de Deus” que não conseguem responder um simples “bom dia”. Me falam: “ a paz do Senhor”, contudo, honestamente, não consigo encontrar e ou receber essa suposta paz. O tom da bela frase “paz do Senhor” chega aos meus ouvidos como censura, com certo grau de “santidade” que nunca serei capaz de atingir. Encontro mãos levantadas em celebrações religiosas querendo “tocar os céus”, porém, insuficientes para acolher o próximo ao lado. Brados, gritos de euforia em shows gospel, mas, silêncio profundo no que diz respeito ao extermínio da juventude negra e os gays em solo brasileiro.
Honestamente, não quero generalizar, quero provocar a reflexão. Sei que o protestantismo é um fenômeno múltiplo. Acredito que seguir a Jesus de Nazaré é defender a vida. É caminhar com o outro encorajando para utopia da grande libertação. É sentar-se à mesa da fraternidade e partir o pão. É colocar as pessoas de pé em meio às estruturas de morte que insistem em nos botar no chão. Não tenho problemas com seus joelhos dobrados em devoção. Não me incomodam suas mãos unidas como quem reza em busca de força transcendente e misteriosa. Contudo, é “só isso”? É uma relação de fé individualista? 
 Como Sugere Frei Betto (autor que tenho lido ultimamente) "viver por um projeto, uma causa, uma missão, um ideal ou mesmo uma utopia, é o que imprime sentido à vida. E uma vida plena de sentido é o que nos imprime felicidade, ainda que afetada por dores e sofrimentos". Sim, difícil é seguir a Jesus. Contudo, sua voz faz “arder o coração”, assim, é preciso mediar fé e ação.



[1]  Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da BA).

NÃO TENHO RESPOSTAS...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 8 de junho de 2017 at 04:23

Por: Cláudio Márcio[1]

Na manhã de sábado do dia 13\05\17 fui ao encontro de um amigo na cidade de Cruz das Almas no território do Recôncavo da Bahia não para sorrir-brincar, mas, para chorar. Sim, situação dolorosa é o ato de sepultar uma criança. Meu amigo (João Paulo) se despedia de seu sobrinho que tão pouco pisou neste chão. Uma criança que brincava e sorria, corria e falava foi repentinamente diagnosticado com uma doença terrível. Mesmo com preces, uma rede de amigos em solidariedade, remédios e o auxílio de profissionais da saúde que nem sempre são tão profissionais, perdemos Frederico.
O pensar antropológico quando propõe o exercício da alteridade, da empatia nos “tira o chão”, ou seja, saber que somos sujeitos históricos relacionais fez com que, inevitavelmente, eu pensasse em meus sobrinhos e sobrinha. Doeu muito pensar nisso. Dói escrever sobre isso. Dói lembrar-se daquela família em prantos pelo pequeno que não mais iriam conviver em seu aspecto corpóreo.
Não tenho respostas! Não preciso ter! Há lideres religiosos que tem respostas para tudo, principalmente, quando se trata da família do outro. Prefiro o silêncio. Prefiro abraçar meu amigo e chorar com ele. Sei que os próximos dias serão extremamente difíceis, isto é, já foi para essa mãe que no domingo das mães não tinha seu filho por perto.
Cada leitor a partir de suas sociabilidades e ou pertencimentos religiosos atribuirão sentidos para essas experiências. Por favor, não me venha com respostas prontas e versículos da bíblia isolados. Desejo ao amigo João Paulo e toda sua família que a vida seja (aos poucos) reinventada mediante a fé, o livro, a escrita, o trabalho, a arte, a comunhão com familiares e amigos.
Que o pouco de anos vividos pelo pequeno e sua luta no hospital não “trave” os pés desta família forte e bonita. Que em breve o sol traga uma manhã de esperança, ou seja, o riso (no devido tempo) vencerá as lágrimas. O canto dos pássaros voltará a ser música. As flores voltarão a serem coloridas e perfumadas. Um belo dia, a dor será saudade boa. Um dia a sangria dolorosa será curada. Caso contrário, precisaremos aprender a fazer bons curativos para seguir em frente.
Que Deus (aquele que sou incapaz de compreender seus desígnios) ajude vocês neste triste momento da existência. Hoje, como líder religioso faço minha prece ao Senhor: “Pai-Mãe, sou pecador, mas, tenha piedade desta família. Ajuda cada um(a) no processo do luto, todavia, que seja realmente processo, isto é, que seguros em tua mão possam em breve continuar a jornada”.



[1]  Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do território do Recôncavo da BA).