O CAFÉ NOSSO DE CADA DIA...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On sexta-feira, 21 de junho de 2013 at 13:11


            Na caminhada pastoral, assim como na vida, há contextos de encantamento-desencantamento comum ao locus existencial de cada dia. Penso que os desencantos já estão bem sinalizados em meus textos e, honestamente confesso que uma dimensão parcialmente profética, não diz respeito a ser do grupo do contra, mas, em amar o projeto do governo de Deus revelado em Jesus de Nazaré.
            Neste sentido, o texto apresenta aspectos e múltiplos sentidos sobre o café junino que nossa comunidade (IPU em Muritiba-Ba), tem realizado já alguns anos. Pensamos ser importante este diálogo com essas brasilidades que se representam na comida, na dança, na religiosidade, no que sociologicamente chamamos de ethos de um grupo. Isso mesmo! Pensamos! Essa é uma das características do ethos da IPU (que ora é valorizado, ora precisa ser redescoberto).
            Desta forma, o nosso café para além dos sabores típicos da culinária, tinha sabor de vida, de celebração, de encantamento, de leveza... O riso que historicamente sofreu transformações (já foi caracterizado como algo diabólico e por isso mesmo em oposição ao divino que era limitado a Igreja) estava no semblante de cada irmão e irmã.
            Um misto de ordem-caos com o movimento das pessoas fazendo os pratos e sentando à mesa. Crianças faziam um bendito barulho e, só quem tem uma criança na família com dificuldades motoras (nossa pequena Clarice, sobrinha de Jussi) pode entender (com maior facilidade) o que significa "bendito barulho de crianças".
            Sim, nosso templo se transforma completamente, nossos visitantes são acolhidos por nossas mãos (que de vez em quando, também é mão de Deus), mas, para mim particularmente, a mão de Deus também chega através dos visitantes independente de sua filiação ou não a um grupo religioso.
            Neste sentido, a mão e a voz de Deus estavam em nosso café também no momento em que o poeta, amigo-irmão Evandro Mota de nossa cidade (cristão católico) como um sabor delicioso de mingau de milho (de nossa irmã Zélia) recitou poesias! A comunidade reafirmou a vida que com força tem brotado em nosso meio.
            Ao cantarmos Asa Branca (do nosso rei do baião), o camarada Marcos Monteiro contou “causos” do seu novo livro (Vila Maravila II) com esse complexo de espiritualidade, política, futebol e vida, fomos abençoados, desafiados a continuar pensando-mudando nossa jornada. Novamente a vida brota e renova a existência.
            A vida também foi celebrada quando ocorreu o mutirão para arrumar e desarrumar a igreja, pois para mim, se confirmou que não é algo e ou um desejo exatamente meu, pois, nossa comunidade acredita ser de extrema relevância o nosso café junino.
            Não aponto como padrão ou estratégia de evangelismo, apenas relato a nossa experiência que evidentemente é importante para nós. Aliás, já tenho bastantes problemas com os modelos de evangelização... Penso, que muitas vezes, nós é que precisamos aprender de Jesus de Nazaré com aqueles e aquelas que insistentemente afirmamos não conhecerem o filho de Deus.
            Bem, esse não é o caso agora, é que me parece irresistível provocar meus leitores, pois, de algum modo para refletir, se animar ou criticar, você se interessa com o que penso, não?
            Assim sendo, defendo que nossa bíblia deve dialogar com o nosso chão e, esse desafio não é (foi) só meu. Entretanto, aqui no Recôncavo baiano, tenho visto manifestações do Espírito em espaços onde a vida, o corpo, a justiça, a brincadeira é a lei. Ou seja, falo do samba de roda, da capoeira, do reggae... Nesses espaços, meu camarada Jesus de Nazaré costuma passar para visitar, brincar, cantar, comer, sorrir. Daí, o meu desejo de que a comunidade IPU em Mutitiba-BA (se assim o quiser) veja um pouco com meus olhos, pois, ultimamente, em conversa com esse mesmo camarada, ouvir suas queixas dizendo:
"- Ô Cacau, é impressão minha ou vocês aqui na igreja são de um jeito e no cotidiano de outro?"
Eu, meio que sem graça, perguntei: como assim? Ele disse:
“- Oxe, não está vendo não? A vida de vocês é tão animada, participam de tantas atividades, visitam tantos bares, shoppings, cinemas, festas e fazem do meu culto algo próximo de um funeral! Oxe vai ter que ser café junino o ano toda agora é? Marminino!"
            Fiquei pensando no papo de meu camarada e, mesmo pensando nos desafios de construir na igreja um espaço também de lazer, de leveza (já que a vida é muito dura), sorrir, um pouco, pois, sei que Ele curtiu nosso café... Não é possível que aquele riso nos lábios, aquele prato na mão com bolo e canjica, o amendoim que O escutei falando com irmã Maria (agente come um atrás do outro...), que ao cantar parecendo que era a última música de um show de forró e, quando o rei do baião foi rememorado, os olhos encheram d'água, não sejam demonstrações de satisfação.
            De qualquer jeito, sou grato por tod@s que possibilitaram o nosso café junino e, assim como um gole de licor que ora queima, ora alegra, nos sentamos à mesa para contar “causos” dos outros que me parecem bem familiares.

Por: Cláudio Márcio

 

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