UM RETALHO NO RECÔNCAVO BAIANO...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On terça-feira, 18 de junho de 2013 at 19:55


O desejo de tecer algumas palavras, que simbolicamente podem representar essa colcha de retalhos que é a vida, apresenta-se com bastante intensidade. Falo do "retalho" do café junino que ocorreu este final de semana (16/06/13) em nossa comunidade (IPU), mas, diante das mobilizações que estão acontecendo em nossa nação e, tentando oferecer um ponto de vista para discussão com o meu camarada Rev. Hênio que solicita minha opinião sobre esta temática olharei para esse outro "retalho" e abordarei sobre o café junino no próximo texto, beleza? Eis os questionamentos do Hênio que me foram postos:
“Minhas perguntas são as seguintes (e pergunto sinceramente): a) não obstante ache que esse movimento possa desembocar sim em coisas promissoras e propositivas para a população, como isso se relaciona com o fato de que as mesmas pessoas que hoje protestam são aquelas que elegeram os políticos que hoje criticam? b) Que se pode esperar, na visão de vocês, em termos de "reflexos" nas próximas eleições? c) a relação dedálica entre política (s) e violência (s) em prol de novas políticas”.       
         Assim sendo, entendo, mas, penso ser necessário problematizar a comum expressão: O BRASIL ACORDOU! E, aponto por que tal desconfiança. A) Em que medida as pessoas estão dormindo e ou acomodadas? Nossas relações sociais ainda que de forma "micro" não são de contra hegemonia e ou contra poder? B) Reflito a história de forma processual. Isso é, há um jogo de mudanças-permanências nesses processos. Acredito ser significativa a questão: o que muda-permanece? C) Por que exatamente agora (com maior projeção) ocorrem essas mobilizações? Quais as vozes colocadas nessa polifonia? Ou seja, há como identificar e ou potencializar as vozes de movimentos sociais; partidos políticos; grupos religiosos; ONGs... Há uma união momentânea em prol do que se entende como bem comum?
            Ora, abalizo apenas alguns fios diante de tantos retalhos que compõem essa complexidade de totalidade-conflituosa-integrada. Não posso e nem quero parecer fatalista e ou incrédulo. Evidente que tudo isso nos faz refletir e de diversas formas nos convoca a tomada de posição. De que lado estamos? Sei também que nessa tessitura da colcha de retalhos, alguns fios encontram outros fios diferentes, o que implica minimamente que as coisas não são necessariamente isso ou aquilo.
            Somos também movidos por sonhos, ideologias e um desejo profundo de experimentar dias melhores. Ainda com um pouco de desconfiança, me pergunto se essas ruas e praças cheias de vida, de símbolos nacionais, de brados de justiça e enfrentamento pacífico-democrático se alongarão até as urnas.
            Evidente que algo está sendo dito, apontado como fora do lugar, mas, em que medida essas pessoas que saíram do facebook para as ruas "maior arquibancada do Brasil" se mobilizariam pelos corpos negros sangrando no chão nosso de cada dia? Pensando com Edson Gomes (cantor de reggae aqui do Recôncavo baiano), há "tanta violência na cidade... brother é tanta criminalidade". Isto é, esse ponto representa mais um retalho.
            Como baiano e nordestino sou estigmatizado como preguiçoso, burro e possuidor de mão de obra barata diante, sobretudo do sul e sudeste da nação e, alguns podem pensar que essa questão não é bem vinda agora, mas, quem determina e ou legitima o momento. Não! Estou de olhos bem abertos e sei que quando esse movimento perder força, continuaremos aqui lutando debaixo do sol para sermos vistos também como possuidores de capacidade de reflexividade intelectual e mão de obra técnica-especializada. Sim, nosso berimbau e tambores continuarão como símbolo de resistência e celebração cotidianamente.
            Sei que é de extrema importância (também) simbólica esses enfrentamentos todos, mas, em que medida o país do futebol, da corrupção e impunidade, romperá com essas estruturas de morte e dominação de elites intelectuais e econômicas se não entendermos que quando falamos do país, falamos de nós mesmos. Ou seja, lembrando-se de Norbert Elias, ao se falar da relação entre indivíduo e sociedade em termos (eu /ela), deve ser substituído por (eu/nós).
            Defendo neste momento pensando com Marx que a tomada da consciência nos livrará da alienação e provocará a práxis. Assim, nós brasileiros, marcados por múltiplas identidades estamos mais conscientes ao tomarmos as ruas? Se sim, votaremos e fiscalizaremos (de perto) os nossos representantes, pois, tenho certeza que você (leitor) sabe em quem e por que votou nas últimas eleições, não?
            Por outro lado, "a revolução democrática do direito e da justiça só faz verdadeiramente sentido no âmbito de uma revolução mais ampla que inclua a democratização do Estado e da sociedade”. (BOAVENTURA, 2011, p.16).  Por isso acredito que tais manifestações fazem parte também de um Direito Achado na Rua, o qual legitima o pluralismo jurídico e abre o caminho para se discutir o direito não como algo pronto e acabado, mas sim como um processo, um vir-a-ser dialeticamente envolvido nos movimentos de libertação das classes e grupos explorados e oprimidos, os quais cotidianamente sobrevivem e lutam em meio à contradição social, mas que dela também colhem conquistas. Além do mais, parte-se da crença na consciência do povo e suas múltiplas estratégias de resistência frente à frustração perante a sociedade corrupta, injusta, desigual.
De resto, mas sem pretensões de encerrar o debate, urge considerar a articulação entre a mudança no cotidiano e a mudança global, as quais se fazem e refazem nas relações de poder e saber.  Assim, se é indispensável consciência coletiva para uma revolução, ou seja, para o extraordinário, uma nova ordem societária só será posta mediante as minúcias do fazer cotidiano, conquistadas mediante os direitos e a cidadania efetivos. Pois, utilizando-se do pensamento de Faleiros (2010), se por um lado apostar na mudança geral a partir das micromudanças é reduzir a política a uma visão reformista, por outro, considerar o dia-a-dia como mero efeito do sistema é reduzir a política a uma visão positivista, negando qualquer possibilidade da construção de uma democracia plena.

Por: Cláudio Márcio

 

 

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