QUE EU POSSA VER...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 13 de junho de 2013 at 19:51


Ao abrir os olhos mais uma manhã, um mundo de possibilidades aparece diante de mim, mas, vez por outra, não vejo de forma satisfatória para continuar caminhando (motivado-encantado) na jornada. Assim, vejo o que já sei e, não me permito ampliar o olhar experimentando a beleza da vida, da novidade. Sim, a vida também é bela. Isso não significa ser alienado diante de relações sociais hierárquicas e desiguais que oprimem tantos humanos em solo brasileiro. Contudo, seja na religião, no partido político, na ONG, na ciência, na natureza... Há possibilidade de encantar-se e reinventar-se criativamente e criticamente em favor da vida e do bem comum.
            Deste modo, onde e com que olhos eu vejo o mundo? É possível está olhando e não ver? Tenho a impressão que o nosso olhar está acostumado e que perdemos a curiosidade de saber, de conhecer. Nem queremos óculos novos, nem colírio... Será que precisaríamos perder a visão para enxergarmos melhor? Lembro ao escrever este pequeno texto do irmão Antista (em memória) da IPU em Muritiba, acredito que, mesmo deficiente visual, enxergava melhor do que muita gente. Sempre sorrindo, brincando e abençoando crianças menos favorecidas de nossa comunidade. O nosso irmão Antista como era conhecido, via sem poder ver.
            Ora, o discurso religioso pressupõe uma missão, uma visão, porém, o que salta aos olhos é uma prática hegemônica e excludente de grupos que se "apoderam" de representações do sagrado e, por isso mesmo, pensam que são donos de Deus.
            Acabo de ler o livro de Derval Dasílio sobre Jaime Wright: o pastor dos torturados. Das muitas impressões e desafios que este livro sinaliza, chamou minha atenção para a relevância de homens e mulheres que em instituições ecumênicas serviram a Deus de forma radical. Isto é, salgando-iluminando vidas que diante de estruturas de morte estavam sendo em nome da ordem, da construção da nação e de Deus, sendo moídas como a cana na máquina de moer, mas, onde estava a doçura neste contexto? Se for possível esta leitura, penso que elas estariam nos laços de companheirismo estabelecidos nos porões da ditadura militar. Sendo assim, homens e mulheres promoviam a justiça e o direito à vida de forma profética impulsionados por fé, por ideologias, por sonhos de uma nação mais igualitária nas relações sociais.
 Cabe apontar que não estou negando o campo religioso enquanto um campo de disputa, pois, seria muita inocência para um estudante de Ciências Sociais. Entretanto, interessa-me problematizar os esquemas e interesses que nos separam e, vez por outra, nos aproximam. Evidente que cada grupo social possui seu ethos, mas, isso nos impede de refazer o olhar em um exercício de alteridade que dignifica o humano. Sim, sei que cada palavra apontada aqui possui significados distintos para saberes específicos. Daí, a defesa de que os grupos religiosos precisam dialogar não só com outros grupos religiosos, mas, com outros saberes.
            De fato, o que vejo hoje é diferente do que um dia meus olhos contemplaram... Por que temos tanto medo de mudar? Penso que podemos-precisamos problematizar o que muda-permanece em nossas relações sociais, pois, não estamos soltos no mundo. Pensando com Norbert Elias, somos indivíduos-sociais. E, mudar os óculos e ou colocar colírio significa necessariamente perceber como estamos presos a essas redes invisíveis onde sofremos e exercemos poder. Ou seja, a religião seria uma rede diante de tantas redes que estão diante de nós...
            Confesso que a rede da religião (que é plural) tem desencantado bastante minha jornada, sobretudo quando percebo esquemas em busca de poder e prestígio em nome de Deus... Porém, tenho colocado meus olhos no sorriso de crianças, na luta de jovens, nos conselhos e mãos firmes das "velhinhas" da comunidade... Nossa EBD “sem” monopólio do discurso pastoral, nossas culturais onde a vida está sendo celebrada, temos "brincado" com Deus com cultos leves e refeições que fortalecem a comunhão... Confesso também que estas atividades e o sopro do Espirito têm me encantado, me enchendo de vida... Assim, desejo servir ao Criador cada vez mais. Não tenho medo de Deus, tenho consciência de um favor que eu não mereço. Logo, a graça do camarada de Nazaré é o bastante para mim.
Aqui, olhando com Deus no buraco da fechadura, com curiosidade de sociólogo em compreender-transformar-celebrar o mundo nosso de cada dia, pois, fé e razão me seguiram todos os dias da mina vida.
Por: Cláudio Márcio

BÍBLIA NA MÃO, SAMBA DE RODA E OU REGGAE NO PÉ, CAPOEIRA E CELEBRAÇÃO DO CORPO...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On terça-feira, 11 de junho de 2013 at 08:23

Tenho me preocupado nestes dias com os paradoxos que encontramos na jornada eclesiástica no que diz respeito ao desejo de um crescimento e a linguagem que podemos-devemos utilizar para ser eficaz-profética e coerente. Neste sentido, a meu ver, deve-se preocupar no que e como é dito as coisas no púlpito (símbolo) nosso de cada dia.
Ora, partindo do pressuposto que a Igreja precisa estar no processo de se reformar cotidianamente, que bíblia e cultura têm que dialogar, que uma suposta dimensão mística do discurso não pode se afastar de uma práxis emancipatória dos indivíduos-sociais, ainda pergunto com o Rev. João Dias: que estou fazendo se sou cristão?
Pensando com Paulo Freire, em que a educação transformaria vidas através de uma conscientização e uma tomada de posição no que diz respeito a uma luta em favor da vida e contra os dominadores do saber, isto é, discordando de uma leitura contextual de Bourdieu que pensava a escola como o locus de reprodução da desigualdade social, pode-se então perceber o caráter emancipatório que há na educação, na troca de saberes. E, refletindo sobre a pedagogia de Jesus de Nazaré, é que me proponho, de forma sucinta,  problematizar alguns pontos.
            Para que e ou quem serve a Igreja? Por que insistir em um paradigma excludente e hierarquizado no discurso homogêneo dos púlpitos? Por que o demônio é sempre o outro? Quando nos emanciparemos de um Cristo europeu? Quando valorizaremos nosso chão e ritmos musicais? Quem disse que precisamos ser burros e ou alienados? Quando participaremos da vida política da cidade em prol do bem comum?
            Têm-se tantos modelos de homens e mulheres que celebraram a vida e partiram o pão nosso em cada esquina e ou praça da cidade... Então, se temos tais exemplos de comprometimento com a vida e a dignidade humana... Vamos nos calar? Vamos ser representados por esses (essas) que ocupam a mídia? Definitivamente, NÃO!
            Acredito-defendo uma comunidade acolhedora e dialógica. Acredito que a mão que levanta para adoração deve ser a mesma que estende ao necessitado no caminho. Acredito que a voz que ora deve ser a mesma que denuncia as estruturas de morte e dominação que estão em nossa volta. Sim! Acredito que o locus religioso pode-deve ser diferente, mais leve, com mais poesia, arte e literatura... Outras vozes devem conversar com os líderes e o púlpito precisa ser plural. CHEGA DESSA SOBERANIA PASTORAL!
            Seria a Igreja só um instrumento de inculcação de valores dos mais velhos para os mais jovens como fala Durkheim sobre a educação? Seria apenas o espaço da docilidade do corpo? Da castração do prazer? Da hegemonia? Do ópio? Para mim, não! A religião é e ou pode ser tudo isso, mas, não é só isso! O contrário de todas essas questões também é possível! Mas, penso que também não seria só isso!
            Onde quero enfim chegar? É o que você (leitor) pode perguntar... Eu te respondo honestamente que não sei. Contudo, sigo meu caminho tentando recriar-me em diálogo com o mundo, com a bíblia, com outras vozes que são também necessárias para dar sentido e ou respostas aos indivíduos-sociais. Aqui em Muritiba-Ba, acredito que o samba de roda e o reggae, assim como a capoeira devem ser observados com mais respeito e carinho pelos protestantes históricos que buscam ferramentas criativas para comunicar o Reino de Deus que emancipa e faz bem ao humano.
            O camarada de Nazaré não se limitou ao templo e sinagoga, ao contrário, utilizou uma pedagogia de ensino nos montes e barcos, uma pedagogia que tocava feridos que eram marginalizados por lógicas político-religiosas opressoras, que ouvia mulheres que não faziam parte da agenda política, que comia e bebia com os considerados pecadores... Esse é o meu maior paradigma! Mas, há tantos outros eficazes na jornada, não?
            Evidente que a tomada de posição não é tão simples assim no sentido de ser isso ou aquilo. Entretanto, poderia perguntar: qual o lado que você vive com maior intensidade? O que gera vida ou morte? A quem você serve? Por que e ou quanto?
            Que nossa escolha quase sempre seja a vida, nosso bem maior, não? Outr@s também não precisam ter a garantia deste direito que historicamente foi negado? Acredito que sim!
Por: Cláudio Márcio