NÃO SÓ A ALMA DO MAL SALVAR...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On quinta-feira, 13 de setembro de 2018 at 07:35



NÃO SÓ A ALMA DO MAL SALVAR...[1]
Por: Cláudio Márcio Rebouças da Silva[2]

 “Dar, pelo púlpito e por todos os meios de doutrinação, expressão do Evangelho total de redenção do indivíduo e da ordem social.” (Pronunciamento Social\1978)

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver” (Mt 25: 35-36)

Eu, de origem eclesiástica Batista, tive contato no Seminário Teológico Batista do Nordeste (STBNe) em Feira de Santana-BA com os professores: Marcos Monteiro, Jorge Nery, Eliabe Barbosa, Ágabo Borges...Naquela instituição os colegas e funcionários marcaram minha vida, isto é,  os horizontes iam se ampliando e sou muito grato a Deus por essas vidas.
Foi no seminário também que encontrei com o Reverendo João Dias de Araújo, inicialmente como estudante, depois de um processo de diálogo, leituras e muita observação, como tutor eclesiástico e amigo de ministério da Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Na sua própria casa e nas igrejas do Presbitério do Salvador nossa relação foi se consolidando. Fui marcado pela vida e obra de João Dias e Ithamar Bueno. Hoje, ativo suas memórias subversivas para lembrar o desafio e a possibilidade de testemunhar o Evangelho de Jesus de Nazaré, uma vez que, não andei com os personagens bíblicos, mais, andei com homens e mulheres comprometidos com Deus.
Estou na IPU há doze anos como ministro da Palavra e dos Sacramentos. Qual a razão de migrar da Batista para IPU?  Bem, confesso que envolvia duas questões centrais: valorização e liberdade para pensar. Exagero meu? Optei pela perspectiva que diz: “defender, pelo exemplo de seus membros, a dignidade do trabalho, quer manual quer intelectual”. (Pronunciamento Social\1978)
 Foi na IPU que tive acesso a um tipo de protestantismo progressista que nunca tinha ouvido falar. Foi na IPU que a consciência Latino Americana foi se fortalecendo. Foi na IPU que comecei minha experiência ecumênica e de diálogo inter-religioso. Foi na IPU que aprendi que Pão Nosso e Pai Nosso não podem se separar. Foi na IPU que percebi o protagonismo da mulher dentro da igreja em cargos de liderança e na tomada de decisões. Sim, foi na IPU que percebi efetivamente que éramos apenas mais uma possibilidade de experimentar a fé cristã. Foi na IPU que instituições como a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE) e a Comissão Ecumênica de Direitos da Terra (CEDITER) me lembram que o dito e o feito precisam de coerência, ou seja, nossa fé-luta manifesta-se como justiça social, pois, a mão que se junta para realizar uma prece, é a mesma do afeto e do encorajamento de irmãos e irmãs na estrada.
Posso salientar sem exagero algum que foi na IPU que “tirei os olhos do céu” e “passei a olhar para o lado e para mim mesmo”. Foi com Jesus de Nazaré que descobri que o Reino de Deus oferece redenção do ser social em todos os seus aspectos. Fui extremamente acolhido e valorizado por muitas mãos generosas da IPU. Continuo grato a Deus pela vida desses homens e mulheres.
     Agora, lembremos que “A Igreja sobrevive quando reconhece a necessidade constante de reforma”. (Manifesto de Atibaia\1978), assim, mudo um pouco o tom do texto, pois, é urgente mudanças no chão da IPU. Ora, penso que é preciso coragem, responsabilidade e perseverança para refletirmos a partir da Bíblia questões como: homossexualidade; racismo estrutural e extermínio da juventude negra, descriminalização do aborto e do uso da maconha, demarcação de terras de povos indígenas e quilombolas, imigrantes e refugiados... são exemplos de questões sociais que precisam entrar na nossa agenda. Até quando vamos nos silenciar sobre essas questões?
            Somando-se a isso e, não menos importante, acredito que precisamos pensar em estratégias pedagógicas de ensino-aprendizagem que caibam junto com a Bíblia expressões culturais com cheiros, sabores, cores e sons. A comunidade religiosa também pode proporcionar experiências que envolvam entretenimento e ludicidade. Por vezes suspeito que a “seriedade litúrgica” castra dimensões corpóreas centrais naquilo que entendemos por “brasilidades”, assim, a IPU é no Brasil ou do Brasil? Pode nosso corpo não ser culto? Acredito ainda que temos que encarar o “clamor” de muitas de nossas igrejas por  revitalização, daí,  (re)pensar a percepção de missões em nosso chão é necessidade de ontem. Não queremos um paradigma missionário castrador, colonizador e que não dialogue com nossa diversidade cultural, todavia, é preciso problematizar: o que queremos? Quais caminhos possíveis para manter a identidade ecumênica e crescer em número de eclesianos e eclesianas? É sério que nossos pastores e pastoras possuem dupla jornada de trabalho e nós ainda almejamos crescimento? O que realmente entendemos por crescimento e missão da igreja? Qual será o futuro de nossas Igrejas? O que a IPU deseja para os próximos 40 anos? Onde estão as crianças e jovens da IPU? Nossa linguagem teológica-litúrgica é eficiente para o século XXI? O que temos aprendido com o movimento ecumênico?
            Bem, essas são questões para serem refletidas para agirmos de forma coerente com a Bíblia, com os nossos documentos fundantes e com o contexto histórico em que estamos inseridos, pois, “... não podemos deixar de prosseguir na obra que nos foi confiada por Deus, e nem podemos ser infiéis à voz da nossa consciência iluminada pelo Espírito Santo”. (Manifesto de Atibaia\1978)
            Que a voz de Deus misteriosa e também comum na boca de homens e mulheres (dentro e fora da igreja) seja audível a cada irmão e irmã. Que o projeto de Deus na IPU não esteja afastado de nossas agendas pessoais. De fato, “declaramos que é nosso desejo prosseguir na obra do Reino de Deus, dominados pelo Espírito de Cristo, em harmonia e alegre comunhão uns com os outros, paz e respeito mútuo”(Manifesto de Atibaia\1978). Deus (Pai-Mãe) escutai minha prece: muito obrigado por todos e todas que te serviram para construir o Teu Reino a partir do chão da IPU. Por favor, chame novos pastores e pastoras, presbíteros e presbíteras, diáconos e diaconisas, eclesianos e eclesianas para essa obra que é Tua e que nós temos a honra e prazer de participar.
Onde ou como servir ao Senhor? Ora, vejo diante de nós muitos desafios que nos deixam quase que “sem fôlego”, todavia, vejo também um povo teimoso que ama o evangelho de Jesus Cristo e a IPU. O texto quando assume o tom mais profético é para lembrar das nossas origens, porém, também  nossa gênese sinaliza anúncios de um novo tempo. Sei que o Espírito Santo tem renovado nossas esperanças e que enfrentaremos nossas dificuldades com espiritualidade, leveza e comunhão.  Foi Deus que nos chamou para seu serviço. “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Coríntios 15:58). Que sejamos instrumentos nas mãos do Senhor dentro e fora da igreja.
Falo agora junto com a minha pastora, a reverenda Sônia Mota quando diz: “40 anos! Alcançamos a maturidade! Espero de coração que a sociedade brasileira já conheça o nosso rosto. Diante do crescimento do fundamentalismo religioso, diante de tantas ofertas de fé fácil e descomprometida, diante de tantas igrejas bem mais preocupadas com marketing do que com Cristo, meu desejo é que a IPU seja reconhecida por sua fidelidade com o evangelho de Jesus de Nazaré. Aquele cara defendeu a partilha de bens, denunciou o acúmulo de riqueza, ensinou o perdão das dívidas, ensinou a acolher o estrangeiro e a valorizar os humildes, a amar todas as pessoas, até o inimigo, e a celebrar a diversidade. Este Jesus que por sua coerência de vida e de posicionamento tornou-se preso político, foi torturado e morto por ter denunciado um império e uma religião que oprimiam. Esse Jesus que nos apontou para o iminente Reino de Deus que já começou com ele e que pode ser fomentado aqui e agora. Que a IPU continue na firme vontade de ser “uma nova forma de ser igreja”.
 Antes de comunicar essas palavras, pedi a Deus para ser uma bênção na vida de vocês. Entendi que era importante pensar nossa Igreja e convidar vocês para continuarem sonhando. Precisamos assumir a diaconia como missão da Igreja. Não há uma receita, porém, precisamos compreender com clareza que Deus nos chama e que continuará ao nosso lado. Não tenha medo meu irmão. Levante a cabeça minha irmã.
O Senhor ungiu nossa cabeça, não somos melhores e nem piores que ninguém. Somos parte do povo de Deus espalhados neste chão. Sou um mensageiro da Paz! Gosto de falar criticamente e não perder a esperança. Convoco então cada mão para o serviço, uma vez que, Jesus de Nazaré nos ensinou que o maior é aquele que serve. Deus abençoe nossa Igreja! Deus nos ajude a (re)pensar nossa missão com coragem, criatividade e compromisso. O Cristo de Deus pode contar com você no chão da IPU? Quem vai continuar escrevendo essa história?
Encerro fazendo uma ligeira mudança no trecho de uma canção de Tom Zé, pois, vou substituir o fragmento menina por IPU, assim: “IPU quero te dizer que amanhã de manhã quando a gente acordar a felicidade vai desabar sobre os homens, vai desabar sobre homens, vai desabar sobre os homens”. Parabéns IPU!



[1] Estudo feito na Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte no dia 09-09-18. Grato ao Reverendo Jorge Diniz e ao Conselho da igreja pela oportunidade de celebrar e refletir.
[2]  Moderador do Presbitério do Salvador e Reverendo da IPU de Muritiba-BA.

LEMBRANÇAS E AUSÊNCIAS...

Postado por Cláudio Márcio | | Posted On segunda-feira, 10 de setembro de 2018 at 16:14


Falando de memórias, de saudades e dos 40 anos da nossa querida Igreja Presbiteriana Unida - IPU.
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” Lm 3.21

Havia um jingle que era assim... o tempo passa o tempo voa e a poupança... continua numa boa..., a nossa juventude atual não ouviu e não conhece essa propaganda, que ficava soando em nossos ouvidos, e na nossa ingenuidade acreditávamos nela. E, por falar em tempo, sabemos que o tempo de Deus, (Kairós) não é o nosso. Por isso há um descompasso entre o nosso tempo (Kronos) e o tempo do Eterno.” Mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem, que passou, uma vigília dentro da noite.” Salmo 90.4 “Debaixo do céu há um momento para tudo, o tempo certo para cada coisa.” (Ec 3.1)
No dia 10 de setembro, completam-se quarenta anos, quando o meu pastor na época Revdo Cyro Cormack, o único pastor do Rio, esteve presente na fundação da Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas (FENIP), em 1978, Atibaia- SP. Hoje, com 89 anos é membro do Presbitério Rio Novo - PRNV. Um grande número de fundadoras, e fundadores, já partiram, e estão ao lado do Pai.
Surgia uma Igreja que abarcava mulheres e homens sonhadores, de um futuro melhor para si, familiares, amigos e para toda a sociedade. Eram pessoas destituídas de ganância, de poder, de vaidade e com sede de justiça. Eram despojadas, engajadas e algumas perseguidas por um sistema arcaico e autoritário (ditadura militar). Acreditavam em um novo Projeto de “ser Igreja”. Igreja que pregasse “as Boas Novas em Jesus Cristo, ao indivíduo e à sociedade”, vivenciasse a igualdade, a fraternidade e a opção pelos mais pobres.
“Antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago seja construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles”. Rubem Alves.
Embarquei nesse sonho e nessa esperança com um grupo de juventude de algumas igrejas dos subúrbios do Rio. Nos reuníamos para discutir, debater e para vislumbrar a nossa inserção nesse movimento que nos atraia, praticamente às escondidas, uma vez que os pastores dos meus amigos/as, não haviam aderido a esse novo momento e a essa brisa leve que soprava, que era sair da IPB, para respirar novos ares e ter a esperança renovada.
Por volta de 1979/80, vieram ao Rio, o Revdo Joaquim Beato e a sua sobrinha, Revda Izaura Márcia Venerano, (companheira de luta e caminhada de toda uma vida, claro que tenho várias, mas ela foi a primeira, nesse novo contexto), para falar sobre a FENIP ao nosso grupo. Eram os primeiros representantes capixabas em terras cariocas. Fomos recepcionados e patrocinados pelo então jovem, na época, representante oficial, Presb. Carlos Fernando Palmer, na Union Church da Barra com um delicioso churrasco. Passamos um sábado inteiro, provando o maná que eles nos trouxeram de presente como aperitivo.
“Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. Miguel de Cervantes – poeta.
Participamos do Encontro Nacional de Jovens da FENIP nos anos de 1980 a 1982, (tenho uma relíquia, que é um crachá de 1982), realizados nos estádios do Mineirinho, BH, e Ibirapuera - SP. Fui autorizada pelo meu pastor. Naquele tempo era assim, precisávamos de autorização para participar de “coisas” fora da Igreja. Era da FENIP, e esse nome soava meio que clandestino.
Bons tempos aqueles! Algumas amigas e amigos ficaram pelo meio do caminho, retornaram às suas origens, uma vez que seus pastores não aderiram aos ideais dessa “nova forma de ser Igreja” e permaneceram na IPB. Ficaram decepcionados, mas eram jovens e quem “mandava” na igreja local era o pastor e as lideranças do Presbitério.
As nossas Igrejas aqui do Rio de Janeiro foram recebidas oficialmente em uma Assembleia em julho de 1983, no culto de encerramento na Primeira Igreja de Vitória-ES. Eu havia sido ordenada Presbítera em janeiro do mesmo ano e era Seminarista. Foi um culto inesquecível. Alegria, participação e comunhão. Estávamos imbuídos de um mesmo sentimento, sentimento de pertença a uma Comunidade que vislumbrava o projeto do Reino, aqui e agora.
Em 1985, foi formada a Confederação Nacional de Jovens da IPU- CONAJIPU, e participamos da primeira diretoria. Éramos um grupo aguerrido que acreditava no potencial da nova Igreja, e na força da sua Juventude. Na época a IPU, era composta por 61 igrejas.
Participamos nesses últimos 35 anos de quase todas as Assembleias e acompanhamos o papel importante que a IPU tem desempenhado sob a direção dos Conselhos Coordenadores, junto às igrejas locais, aos organismos ecumênicos e a preservação dessa Igreja comprometida com a justiça social, herdeira da Reforma e testemunha fiel do Reino inaugurado por Jesus, o Cristo.
O nosso sonho não acabou, continuamos sonhando e realizando o que Deus tem colocado em nossas mãos para realizar. A esperança não feneceu. Pois apesar de vivermos atualmente, dias sombrios e maus, aonde o nosso povo tem voltado a não ter dignidade, acreditamos no poder e na força do Evangelho de Jesus, o Cristo libertador, que nos livra de todo tipo de amarras, de opressão e de exclusão.
Precisamos continuar a honrar e a ter sempre na memória, a luta, a garra, o sonho e a esperança dos nossos primeiros fundadores, mulheres e homens leais e fiéis ao Evangelho. Que almejavam uma Igreja solidária, libertária, ecumênica, inclusiva (sem discriminar ninguém), que estivesse inserida de fato e de direito na Sociedade, para que pudesse ser mais fraterna e solidária, com espaço para mulheres e homens de forma equitativa (creio que isso no nosso meio precisa ser revisto, somos maioria). Pois, apesar da Igreja ordenar mulheres ao sagrado Ministério e aos Sacramentos, ainda somos minoria entre as ordenadas/os.
Nos 40 anos de caminhada não podemos perder de vista os sonhos e a esperança que o Senhor da vida tem colocado na mente e no coração de todas e todos que fazem parte dessa Igreja, e louvá-lo pelas maravilhas que ele realizou, realiza e continuará a realizar no meio do seu povo.
O nosso Princípio de Fé e Ordem – PFO, no artigo 4º, do parágrafo XII, nos aconselha: “envolver-se, fraternal e livremente, em amor e serviço ao próximo, dentro e fora de suas comunidades. Reconhecer que, nenhuma barreira institucional humana pode obstar a ação do Espírito Santo, sinal do Reino de Deus na terra”.
A nossa gratidão e carinho a essa Igreja querida que nos tem acolhido, como um colo de mãe que acaricia, beija e protege a sua cria. Faço das palavras do educador Paulo Freire, as minhas:
“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, é juntar-se com outros para fazer de outro modo...”.
Vamos esperançar querida IPU, e que as bênçãos do nosso Criador que é Pai e Mãe, sejam com todas as irmãs e irmãos dessa amada Igreja.
Revda Neusa Gomes Palmer - Tempo comum