Por: Alexandre de Jesus dos Prazeres[1]
Por estes dias, recebi de um grupo de
religiosos, recolhendo assinaturas, uma petição contrária ao samba-enredo da
Mangueira que será entoado no sambódromo neste ano. O desconforto estaria sendo
causado por trechos do samba como o seguinte: "Eu sou da Estação Primeira de Nazaré /
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher / Moleque pelintra no buraco quente
/ Meu nome é Jesus da gente". O samba-enredo apresenta Jesus falando em
primeira pessoa e se identificando com oprimidos e marginalizados pela sociedade:
o negro, o índio, a mulher, o moleque pelintra, enfim os invisibilizados, os
que sofrem.
Talvez nisto esteja uma das causas de
incômodo, Jesus se identificando com quem não é benquisto nos ambientes nos
quais, no geral, ricos são bajulados e pobres menosprezados. E ambientes
religiosos não são isentos deste comportamento, principalmente onde é pregado
que são abençoados por Deus os que possuem poder de consumo. Pois estas igrejas
apresentam Deus como um deus de consumidores, que dizimam e frequentam cultos
para obterem dez vezes mais condições para consumir. Quem não tem teto, roupas
de grifes, carros, enfim prosperidade, não é abençoado por Deus. Como poderiam
cogitar que Jesus estivesse na pele desta gente?


