quarta-feira, 28 de setembro de 2011
PARALISAR PARA MOBILIZAR
domingo, 25 de setembro de 2011
AH, COMO EU QUERO...
Cada manhã diante de Tua presença percebo que tenho muito a aprender, a viver, a cuidar, a sorrir, a celebrar... Mas, os compromissos diversos do cotidiano insistem em me afastar da beleza da Tua criação. Não tenho mais tempo de ouvir os pássaros que cantam a me alegrar. Não sinto o gosto do café e ou do pão... Pois, essa e outras práticas são feitas quase que mecanicamente, sem reflexão, sem estar por inteiro...
Quero poder sentar à mesa da fraternidade sem tempo para levantar... Quero brincar em uma piscina até os dedos enrugar... Quero ouvir meu reggae e meditar... Quero ler um livro sem pressa de acabar... Quero dormir só mais um pouco ao lado de minha amada sem me preocupar... Quero jogar um dominó mesmo se for para passar...
Quero ver as crianças na escola a estudar... Quero ver incentivo do governo para o salário do professor melhorar... Quero ver o pão na mesa do pião a trabalhar... Quero ver a saúde e a acessibilidade dando as mãos para dançar... Quero que cada brasileiro entre nessa dança... Quero que os marginalizados definitivamente tenham seus direitos garantidos e aplicados...
Quero que as mulheres tenham salários dignos e não mais sejam agredidas... Quero que todos tenham a liberdade de exercer sua espiritualidade e ou religiosidade sem serem criminalizados... Quero que os muros das Universidades e das Igrejas caiam no chão, ... Quero que as praças encham-se de namorados, de crianças, de velhos, de justiça e dignidade... Quero que @s negr@s não sejam julgados e condenados pela cor de sua pele... Quero que os homossexuais não sejam agredidos e ou mortos pela intolerância e preconceito de muitos...
Quero ver a alegria sorrindo para mim... Quero sentir o perfume de uma flor... Quero olhar as estrelas... Quero transformar essa realidade de morte... Quero sujar as mãos na construção de outro Brasil e ou mundo... Quero ouvir o som dos tambores anunciando: eis que faço nova todas as coisas!
Quero ser de verdade no e com o mundo (quem sabe assim, minha vida tenha sentido). Sim, como eu quero... Fraternalmente,
Cláudio Márcio
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Passa a farinha aí...
Pai-Mãe de toda criação, me lanço diante de Ti em minha totalidade.
Sei que Tua mão forte e carinhosa está estendida para mim. Ora, arrancando pedras no caminho... Ora, batendo uma na outra e dizendo: vamos lá! Você consegue!
Sei que Tua voz alegre, forte me diz: Muito bem!Tenho tanto orgulho de você! E, evidentemente, em outros momentos... Assim não rapaz! Tenha mais cuidado!
Olha Deus do Brasil, do Nordeste, da Bahia, do Recôncavo baiano, de Muritiba... Como é bom me relacionar contigo! Que bom perceber o quanto somos amados por Ti. Que bom ver que o Senhor celebra a vida conosco em cada esquina... Em cada reggae tocado, em cada apresentação do samba de roda... Que bom é esse som do berimbau não é senhor?
Quando estou com você: meu coração encontra paz; sinto-me tão amado; protegido. Percebo que o Teu Reino é infinitamente maior que minha maneira de ver, pensar e sentir a fé cristã. Por isso, a todo tempo na história tens levantado homens e mulheres para semearem a semente da esperança, do respeito, da justiça, da fraternidade.
Assim, me lanço diante deste mistério profundo que ora se revela e ora se esconde. Confiando neste ardor em meu coração que de alguma maneira minha vida precisa ser sinal de Tua presença. Ajuda-me! Preciso de Você!
Olha só, quero brincar, dançar, comer com você!
Pode ser uma tapioca, um cuscuz, uma maniçoba, um acarajé, uma feijoada... O que o Senhor quiser! Pode pedir mais farinha, pimenta... Agora, é uma comida forte! Você topa? Outra coisa: pode se sentir em casa! Se desejar, pode comer de mão (é muito bom)! Depois, tem a esteira e ou uma rede... Fique a vontade... Minha casa é a Tua casa.
Ah sim, Tua mão também pode ser usada para bater na minha e dizer: valeu!
Forte Abraço,
Rev. Cláudio Márcio
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
PERCEPÇÕES DE UM REVERENDO...
Na EBD em Muritiba!
“As Sagradas Escrituras são o padrão de doutrina e ética. Reconhece-se, contudo, diante delas, o direito a diferentes posicionamentos exegéticos e teológicos os quais, sob a influência de condicionamentos históricos, culturais e sob a orientação do Espírito Santo, transformaram-se e se transformam de acordo com as necessidades dos homens e passaram a constituir verdadeiro patrimônio espiritual da Igreja.” (Princípio de Fé e Ordem da IPU)
No dia 03/09/11 em nossa EBD na IPU em Muritiba tivemos uma manhã muito desafiadora, onde nos deparamos com questões que nos deixam sem sono... Pois, entendemos que precisamos nos articular mais e melhor para que o Reino de Deus possa efetivamente proporcionar outras realidades em nosso viver social. Desta maneira, é que Jussiana e Mércia (estudantes da UFRB, do CAHL e do curso de Serviço Social), estabeleceram um diálogo entre a bíblia e a sociedade. Assim, o tema escolhido por essas irmãs foi: CARIDADE: Entre a alienação e a emancipação!
Ora, evidente que este tema traz provocações a comunidade cristã, uma vez que, no afã de fazer o bem, muita comunidade eclesiástica tem alienado homens e mulheres no seu cotidiano na perspectiva da acomodação, da inércia, da não emancipação desses sujeitos na história. Ou seja, é dever de cada cristão não só cobrar dos governantes e ou líderes a aplicação de seus direitos, mas também de fiscalização e ou militância em favor da justiça, da fraternidade, de relações mais igualitárias.
Desta maneira, é necessário perceber que: A) Ao conhecermos o Cristo que é verdade, os nossos olhos precisam se abrir para uma nova realidade. Isto é, um novo olhar do humano para ele mesmo, pois, este é capaz de criar e recriar sua história; B) Quantas vezes com a distribuição de cestas básicas, roupas, sopão... (se é emergencial tudo bem), mas se não, como comunidade eclesiástica, temos agido corretamente? C) O Cristo que multiplica os pães e peixes não é o mesmo que manda Pedro pescar (para que impostos fossem pagos)? D) Os eclesianos conhecem a Lei Maria da Penha? O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)? O Estatuto do Idoso? Conhecem como funciona o Programa Bolsa Família? Estamos ensinando essas leis e esses direitos na nossa comunidade?
Assim, acreditamos que a comunidade de Jesus de Nazaré espalhada neste chão deve testemunhar da graça do Filho de Deus e também lutar contra as dominações nas dimensões político-econômico-ideológicas que animalizam o humano e insistem em oferecer migalhas como favores e não efetivação de direitos que historicamente foram negados a homens e mulheres em cada esquina da invisibilidade social.
Contudo, o debate não encerrou em nossa EBD... Mas, fomos para casa dispostos e cientes que temos que debater muito mais este tema e que, sobretudo, em muitos momentos temos agido errado e achando que estávamos fazendo o bem...
***
Na UFRB e a GREVE!
CHEGA!
"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda."
(Paulo Freire)
Neste momento marcado por tantos embates político-ideológico que a nossa UFRB se encontra, nos deparamos com questões e interesses múltiplos no rosto, na fala, na escrita de cada um que participa de um jeito ou de outro deste processo de busca de garantia de direitos em que, sobretudo a categoria de estudantes leva a pior.
Desta maneira, venho manifestar minha indignação com o descaso com a educação pública de qualidade, em que professores, técnicos e, sobretudo estudantes que sonharam com a possibilidade de uma vida melhor, se depararam com a realidade e acordam em uma universidade que carece URGENTEMENTE de avanços mais significativos na busca de excelência acadêmica.
Ora, pensar que nada foi feito seria injustiça de minha parte. Contudo, há necessidades emergenciais mínimas que não são garantidas nem aos professores e aos técnicos, nem tampouco aos estudantes. Desta maneira, o que fazer quando o diálogo na mesa não é o suficiente?A resposta é: GREVE DO MOVIMENTO ESTUDANTIL! PARALISAR PARA MOBILIZAR! Essa é a nossa voz, o nosso grito, a nossa esperança! O desejo profundo de ver a educação sendo usada como instrumento de emancipação, e de transformação social. Porém, de um modo geral não é isso que salta aos nossos olhos!
Percebemos que como bem cantou Sine Calmon “esses homens não se cansam do poder” e a educação torna-se mercadoria na mão de mercenários que se preocupam mais com sua conta bancária do que com o outro! Contudo, quem é este outro? Ora, evidente que é o pobre, o negro, o índio, a mulher, o homossexual... Que por mais que políticas públicas sejam garantidas, ainda há um débito histórico desanimador.
Entretanto, o que cabe a nós estudantes da UFRB? Só reclamar? Achar que somente quem dorme nos centros aderiram à greve? Permanecer nesta desculpa de que a greve é o último passo? Você sabe quantas negociações já foram feitas? Você sabe que muitos pontos de pauta são os mesmos? E, o que isso significa? Que não há um compromisso com a educação pública! Que não estamos na agenda do Reitor! Que os nossos centros possuem demandas básicas para a permanência de cada estudante!
Assim, defendo e acredito que nós estudantes da UFRB buscamos uma educação de qualidade! Buscamos uma instituição que nos capacite para o mercado de trabalho! Buscamos um referencial que nos traga prestígio! Buscamos o que é direito nosso! Buscamos através de uma práxis, transformar o nosso chão!Chão bonito e sofrido...
Sim! Acreditamos que toda realidade que é socialmente construída pode ser transformada e ou ressignificada. Sim! Acreditamos que não só podemos como devemos modificar as estruturas de morte, é tempo de vida! Sim! Somos sujeitos históricos e um EVENTO pode trazer um paradigma mais igualitário e qualitativo para tod@s.
Logo, exponho minha indignação... Chega! A educação como qualquer outro elemento pode ser usado para libertar e ou escravizar! Como cada um de nós de tod@s instâncias da UFRB estamos usando?
Há braços
Cláudio Márcio (UFRB/CAHL/CISO)
domingo, 4 de setembro de 2011
MOÇÃO DE REPÚDIO
sábado, 27 de agosto de 2011
PARA SERVIR A DEUS... TEM QUE TER “RAÇA”!
Sei que está aqui meu bom pastor... Sinto Tua mão a cuidar de mim.
Quando tenho sede... Tu és água viva!
Fome... Tu és o pão vivo que desceu do céu!
Quando estou doente... Sei que podes me sarar!
Quando estou em desespero... Olho para Tua cruz!
Quando não consigo dormir... Tento ouvir Tua voz!
Sou tão grato! A vida está sorrindo para mim!
Quero neste momento só estar diante de Ti em silêncio!
Ouvir Teu som, sentir Tua vibração... Ficar em paz.
Como? Não entendi! Pode repetir o que falou?
Um sussurro ao meu ouvido chegou:
- Tu és meu filho amado... Alegro-me em ti.
Imediatamente pensei:
Tá brincando comigo SENHOR?
Então, o sussurro ocorre novamente:
- Não! Mas, você quer?
Eu disse: claro! De quê?
Ele em voz alta e alegre exclamou:
- Ôxe menino... Não escuta o som do berimbau?
Abraço sócio-teológico
Rev. Cláudio Márcio
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
EBD e cotidiano...
Este domingo de manhã em nossa IPU foi muito legal
É claro que fomos a mais uma escola dominical
Cantar, sorrir, orar, abraçar, estudar
Mas, tinha motivo para comemorar?
É isso que agora quero contar.
Foi quando o Pastor resolveu falar
De uma tal Maria da Penha que vivia a apanhar
O marido, tirado a cabra da peste
Insistia em lhe maltratar
Contudo, cabe uma pergunta:
Esse danado não tem que se lascar?
Dessa forma, o pastor insistia em questionar:
É justo irmãos, uma mulher apanhar?
Fale sério, não tenha medo não...
Se a EBD não pode discutir isso
O que viemos fazer aqui então?
Pensar no sexo dos anjos?
Viemos por obrigação?
Não sabemos repartir o pão?
Então tá difícil:
O homem que usar a Bíblia para dominar
Ela não seria para emancipar?
Oxe, a igreja precisa ser relevante,
Voz de Deus constante
Que traz paz e libertação
E deixa as algemas caindo no chão.
Então, neste domingo de 07 de agosto
Vamos repensar a nossa ação!
Em meio a violência, corrupção e o preconceito...
Que estou fazendo se sou cristão?
Não é essa a pergunta João?
domingo, 31 de julho de 2011
Sou teu senhor...

“Para de manhã anunciar a tua benignidade, e todas as noites a tua fidelidade;”(Sl 92.2)
Pela manhã te buscarei. Mas, como te encontrar?
Estás no canto do pássaro, no sorriso de uma criança.
Na linda canção, no texto lido, na poesia, no abraço fraterno.Encontro-te na oração, na contemplação da natureza.
Encontro-Te nas esquinas e praças da cidade, no meio da feira.
Encontro-Te na diversidade de humanos e culturas.
Encontro-Te onde falam que não estás e às vezes onde me falam que habitas não te encontro!
Estás onde há manutenção do projeto da vida, na voz de sindicalistas, ONGs, MST, movimentos sociais que verdadeiramente almejam justiça social, igualdade e comunhão entre os humanos.
Estás com o violeiro, com a lavadeira, com o militante do amor, da esperança, da alegria.Sei que o que queres de mim é compromisso, dedicação, engajamento, criatividade...Sei que tenho muito a agradecer e por isso quero com minha vida te dar meu louvor.
Sei que quando ando no vale da sombra da morte... Tu estás comigo.
Sei que em Ti eu existo, eu sou justamente porque Tu és.
Aqui renovo minha fé em Tua presença e desejo profundamente ser sal e luz da Terra no e com o mundo. Em nome do Verbo que agiu na boca dos profetas, na vida dos apóstolos e que age na aldeia global... AMÉM!
Abraço sócio-teológico, Rev. Cláudio Márcio
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Revolução sexual: da reprodução ao prazer.
“A sexualidade plástica é a sexualidade descentralizada, liberta das necessidades de reprodução.” (Anthony Giddens)
O tema da sexualidade tem sido muito estudado e debatido em nossa contemporaneidade em diversos espaços da sociedade civil, escolas, ONGs e outros... No entanto, é evidente que as transformações sociais a respeito deste tema se dão em contextos específicos e por interesses diversificados onde o corpo (sobretudo o feminino) ocupa um lugar central neste processo que vai além da percepção de reprodução e se permite outras experiências e sensações historicamente negadas. Isto porque a mulher, nas sociedades patriarcais, encontrava-se sujeita aos mandos e desmandos do controle masculino, da ordem social, das leis do Estado e da Igreja, que comungavam do mesmo objetivo: o adestramento da sexualidade feminina, a repressão das filhas de Eva, que simbolizavam (caso as correntes fossem retiradas) ameaça ao equilíbrio doméstico, enfim, à ordem moral.
Nesse contexto, e em meio a esse adestramento, a sexualidade era o foco que trazia maior preocupação social. Vale ressaltar que em todas as culturas, a iniciação sexual é uma etapa marcante para a construção social do masculino e do feminino, ou seja, homens e mulheres são ensinados a olhar para a sexualidade de forma diferente. Nesse sentido, “a sexualidade é mais que a mera relação carnal, porque envolve a mobilização de formas sociológicas e culturais”. (PINHO e SANSONE, 2008, p.259)
Porém, é necessário convidar algumas pessoas para sentar-se à mesa e continuar este diálogo e ou debate sobre a dinâmica da sexualidade no processo histórico e social. Logo, como afirmou Peter Berger a realidade é construída socialmente entre outros elementos, a partir da linguagem e ou discurso em um jogo de disputas simbólicas e ideológicas na arena cultural. Daí é necessário perceber e identificar neste processo de construção social, quem fala? De onde fala? Para quem fala? A serviço de quem é a fala? Logo, os agentes são histórico-sociais, que elaboram discursos e representações a partir do seu contexto social
Contudo, é necessário entender que as mudanças de comportamento sexual não se deram de uma noite para o dia, essa metamorfose se dá muitas vezes lentamente e envolve questões múltiplas. Uma vez que como sinalizou Max Weber, estamos presos a teias e ou esferas que criamos na sociedade onde estamos inseridos. Desta maneira, o humano exerce diversos papéis sociais para responder de forma adequada o que cada contexto exige dele. Isto é, como afirmou Anthony Giddens: “Não são apenas os indivíduos que estão posicionados em relação uns aos outros; os contextos de interação social também estão.” (GIDDENS, 1991, p. XXVII)
Essa transformação assinala então, um rompimento com o paradigma religioso que durante muito tempo dominou a conduta moral da sociedade européia. Ou seja, o sacerdote religioso utilizava-se da sua eficácia simbólica como representante de Deus, onde não poderia ser questionado e por isso deveria cuidar da família e dos valores cristãos para que houvesse harmonia social. Ora, é evidente que o processo da sexualidade ocorre em espaços de conflitos, luta poder, violência. Daí, como afirmou Michel Bozon “Os significados mobilizados em cada sociedade para evocar as relações sexuais servem, igualmente, para se referir à dominação de sexo em geral, ou até mesmo a dominação de classe”. (BONZON, 2004, p.22)
Entretanto, Bozon sinaliza que o processo da reprodução era androcêntrica, o que provocava subordinação feminina e inferioridade desta no mundo social. No entanto, houve rupturas na ordem social que geraram transformações sociais, políticas e intelectuais e outras, que passam evidentemente pelas relações entre os sexos. Daí, a noção de amor conjugal que é construído, há a busca do autocontrole (regular conduta). Logo, é importante recordar que a noção de espaço íntimo é historicamente recente, uma vez que no período medieval havia vários leitos onde pais, filhos e empregados não estavam sistematicamente separados.
Todavia, a proibição de atos sexuais nos espaços públicos (punição pela lei) começa a instaurar-se nas sociedades ocidentais, não se podia mais falar livremente sobre sexo nas conversas cotidianas entre pais e filhos. Logo, ficava estabelecido o que se podia realizar no público e nos bastidores, como bem apontou Norbert Elias: “formação progressiva de duas esferas diferentes da vida humana, uma íntima e secreta, e outra aberta, um comportamento clandestino e um comportamento público”. (BOZON, 2004, p.35 apud ELIAS, 1973, P. 317)
Ora, todas as sociedades passam por um período de forte fecundidade e forte natalidade. Segundo Bozon, um elemento significativo neste processo de transformação da sexualidade foi a revolução contraceptiva onde em 1960, nos países desenvolvidos, formas de contraceptivas mais confiáveis gera aumento da autonomia social feminina. Ou seja, há autonomização da sexualidade com respeito à procriação, um exemplo disso foi a difusão maciça do DIU. Na sexualidade contemporânea, a procriação ocupa apenas um espaço reduzido e marginal. Isto é, ocorre uma revolução sexual que coloca na mulher o poder da reprodução (o poder muda de mãos, ou melhor dizendo, retorna às mãos pensando nos mitos fundantes), e há uma reviravolta na maneira de encarar a fecundidade, sobretudo com a inseminação artificial, em que a fecundação in vitro (encontro entre os óvulos e espermatozóides) é feito em laboratório mediante o controle médico.
essa reprodução sem relações sexuais assume um papel simbólico importante e traduz muito bem a evolução contemporânea que aproximou a procriação da técnica, afastando-a da “natureza” e da sexualidade, com o desejo de ter filhos não mais inscrito, necessariamente, no calor do desejo sexual. (BONZON, 2004, p.45)
Nesse sentido, ocorre também um enfraquecimento na instituição casamento. Contudo, o fato de não viver com alguém não impede, sobretudo com a revolução sexual, a existência de uma vida sexual, tanto para homens como para mulheres. Daí, a sexualidade, que era praticada pelo indivíduo casado, tornou-se uma experiência interpessoal indispensável à existência do casal. Ora, a relação sexual no relacionamento tornou-se termômetro para medir a temperatura do casal, podendo até gerar um problema conjugal, levando muitas vezes a separação. Isto é, se busca em nossos dias reciprocidade em relação à prática sexual (o direito ao prazer).
Desta forma, é importante perceber que as mudanças não ocorrem aleatoriamente e pacificamente, no momento de transição entre o que permanece e o que se deixa de lado, há luta de interesses, de dominação por um lado e há também resistência do outro. Resistência e recriação de suas relações sociais no cotidiano. Ou seja, as feministas buscavam a efetivação de suas demandas, sobretudo, em relação ao direito de dispor do próprio corpo, de suas capacidades reprodutivas e a resistência contra violência sexual.
Todavia, para Anthony Gidenns, o tema da sexualidade desloca-se do setor privado para o público, onde em muitas reflexões sobre a sexualidade (feita por homens), não há menção ao amor; e o gênero aparece marginalizado na discussão. Logo, sinaliza o autor:
A sexualidade plástica pode ser caracterizada como um traço da personalidade e, desse modo, está intrinsecamente vinculada ao eu. Ao mesmo tempo, em princípio, liberta a sexualidade da regra do falo, da importância jactanciosa da experiência sexual masculina.”( GIDDENS, 1993, p.10)
Nesse caso, há uma descentralização do masculino para efetivação do prazer sexual, uma vez que, o corpo feminino se permite através de outras possibilidades com o outro e consigo mesma, a dimensão do prazer sexual.
No entanto, apesar de inúmeros avanços e ou conquistas em uma sexualidade mais democrática, há uma moral sexual diferenciada nos hábitos social de homens e mulheres. Isto é, as mulheres não admitem mais a dominação sexual masculina, e ambos os sexos devem lidar com as conseqüências deste fato. Uma vez que: “As mulheres esperam tanto receber quanto proporcionar prazer sexual, e muitas começaram a considerar uma vida sexual compensadora como um requisito chave para um casamento satisfatório”. (GIDDENS, 1993, p.21-22)
Ora, pensar o humano e seu relacionamento com o outro, pensar na dimensão do corpo e do poder, é convidar Foucault na sua percepção do “poder disciplinar” característico da prisão e do asilo. Ou seja, o poder disciplinar produzia corpos dóceis controlados em suas atividades e não atuando espontaneamente sobre os impulsos e desejos. Porém, o poder se manifesta aqui como uma força de repressão. Daí, Segundo Foucault: “O sexo tornou-se de fato o ponto principal de um confessionário moderno... o confessionário católico foi sempre um meio de controle da vida sexual dos fiéis”. (GIDDENS, 1993, p. 29) No entanto, Giddens faz criticas a Foucault no que diz respeito ao tema da sexualidade em suas dimensões do poder, do discurso, do corpo... (o que foi uma contribuição significativa) Mas, silenciou-se quanto às vinculações da sexualidade com o amor romântico (que ilumina a vida e traz alegria ao coração), elemento fortemente vinculado às mudanças na família.
Durante o século XIX, a formação dos laços matrimoniais, para a maior parte da sociedade européia, ultrapassava os valores econômicos e os limites dos laços de parentesco, através da ideia do amor romântico. Nesse contexto, o lar passou a ser um ambiente distinto, separado do trabalho; métodos modernos de contracepção foram criados, planejamento familiar... Ou seja, “a sexualidade passou a fazer parte de uma progressiva diferenciação entre o sexo e as exigências da reprodução... A reprodução pode ocorrer na ausência da atividade sexual”. (GIDDENS, 1993, p.37)
Entretanto, cabe ressaltar que a ideia do amor romântico está intimamente relacionado com os valores morais da cristandade, a fazer do outro alguém especial. Por esse e outros motivos que a autonomia sexual feminina e o florescimento da homossexualidade têm gerado tantos conflitos na sociedade. O que está em jogo é uma luta política por direitos negados a quem, insistentemente, afirma sua identidade sexual nesta arena cultural.
Desta maneira, estamos diante de uma nova fase da sociedade em que as mudanças ocorrem com maior velocidade devido ao avanço tecnológico, mudança nos meios de comunicação, sobretudo com o advento do computador e a internet onde a comunicação se estabelece com maior eficácia e o mundo se une através deste poderoso instrumento de comunicação. Outro aspecto significativo foi a descentralização do poder religioso na vida das pessoas. Ou seja, não só cresce o número de religiosos deste ou daquele grupo, cresce também o número de pessoas sem religião alguma.
Ora, os agentes sociais se colocaram não somente como participantes de vivências na sociedade, mas, construtores de suas relações e de novas demandas que se estabelecem no cotidiano. Assim, o corpo, o poder, a sexualidade, a pluralidade ganha espaço na agenda política do governo e ou grupos civis em que as identidades estão sendo construídas através do discurso, da militância, da reflexão acadêmica... Isto é, os espaços estão sendo ocupados e uma nova ordem social - no que diz respeito ao tema da sexualidade - tem se instaurado.
Evidentemente, que esse processo de mudança é conflituoso e que a tradição e o novo medem força na maioria das vezes, não para se complementarem e reverem suas ações, mas para anularem o outro na busca do poder, da dominação e dos interesses que estão em ambos os espaços. Logo, de um lado o mercado sexual, o mercado da prostituição, de objetos e imagens... E do o outro, a moral cristã, a preservação da família que insiste em não se rever diante de um novo tempo.
Contudo, somente através de uma revolução sexual poderia ocorrer a mudança de uma prática sexual que antes se limitava tão somente a reprodução (diga-se de passagem, para a vida das mulheres), mas, que agora perpassa na dimensão do prazer. Ou seja, há um novo olhar do humano para si mesmo e para o outro. Há uma emancipação humana que tem gerado novas relações sociais no que diz respeito à sexualidade. Como lhe dar com esse fenômeno? Aonde iremos chegar com a liberdade sexual total? Sinceramente, não sei... Sei que a mesa está posta e que tradição e novo, fé e ciência precisam dialogar e que a experiência da reprodução pode ser também extremamente prazerosa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOZON, Michel, Sociologia da Sexualidade: Tradução Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
BRETON, David Le. A Sociologia do Corpo. 4° edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2010.
DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.
GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: amor & erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora UNESP, 1993
_________. As Consequências da Modernidade: tradução Raul Fiker. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
PINHO, Osmundo & SANSONE, Livio (Orgs.). Raça: novas perspectivas antropológicas. 2 ed. Salvador: ABA, EDUFBA, 2008.