sexta-feira, 15 de abril de 2011

VALEU A PENA!



“A vida e a morte são as duas faces da mesma moeda. A morte sorri-me como uma amiga”. (Mahatma Gandhi)



VALEU A PENA!


Na perspectiva cristã, todos (as) estamos aqui de passagem como peregrinos. Isto é, nossa morada é celestial. Esse pensamento também trouxe muitos prejuízos às comunidades eclesiais que almejavam uma mudança, uma transformação social aqui e agora. Ou seja, um evangelho integral que cuida do humano como um todo. Como diria o nosso querido Rev. João Dias: “Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo, sem dividir: Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar.”


Desta maneira, precisamos estabelecer um relacionamento profundo entre o porvir, o desconhecido, e o agora. Logo, o Pai Nosso e o Pão Nosso são inseparáveis.Ou seja, são perspectivas que foram dicotomizadas historicamente por interesses diversificados. No entanto, cabe ressaltar que um não exclui o outro, são complementares.


Diante disso e na mesma medida todos nós cristãos almejamos o que disse o apóstolo Paulo: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam.” (1 Cor.2:9 ). Todavia, temos que também pensar em Isaías 58:7 que diz: “ Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?”


Entretanto, na nossa caminhada da vida às vezes nos perdemos no meio do caminho e a vida parece que perde o sabor. Daí, algumas preguntas precisam ser feitas: Até quando estaremos aqui neste chão? Qual o sentido de nossa existência? Ainda há humanidade em nós ou o modelo econômico capitalista opressor e excludente venceu a ponto de nos sentirmos um objeto? Uma outra maneira de sociabilidade é possível? Queremos este outro modelo? O que estamos fazendo para que a mudança ocorra? E se nosso vida “se encerrasse” amanhã? O que você faria?


Renato Russo nos indica que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Gonzaguinha nos diz: Viver! E não ter a vergonha De ser feliz. Cantar e cantar e cantar. A beleza de ser Um eterno aprendiz... E ainda Jota Quest quando canta: “ Ei, dor! Eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. Ei, medo! Eu não te escuto mais. Você não me leva a nada... E se quiser saber pra onde eu vou. Pra onde tenha Sol. É pra lá que eu vou...”.


Deste modo, esses paradgimas destas canções: amar, ser aprendiz e vencer o medo podem em parte responder e ou sinalizar possíveis respostas em nosso cotidiano. Assim, cada momento deve ser vivido com intensidade, com paixão, com responsabilidade e sobretudo entre a dimensão do recriar, recomeçar do transcender diante dos obstáculos que insistem em nos paralizar, nos calar, nos fazer pensar que não vale a pena viver, sonhar...(carpe diem).


Entretanto, um dia iremos passar por este rito de passagem (a morte), uma vez que isso faz parte da vida. Porém, como diz Rubem alves “ A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se torna símbolo de morte.”


Segundo o sociólogo italiano Domenico De Masi, os primeiros homens acreditavam que a morte era o único fim do indivíduo e que a dor, a tristeza e a melancolia eram inevitáveis e incuráveis. “E, assim, abandonavam os corpos e não os sepultavam, da mesma forma como fazem os animais ainda hoje.” Daí, o sepultamento é inventado (ou seja, é uma construção social e histórica). Logo, o humano é o único ser vivo que enterra seus mortos... “por medo do contágio, do mau cheiro e do nojo causados pela putrefação”. ( De Masi).


Para Émile Durkheim, o humano necesssita passar pelo rito de passagem para que sua vida possa ter continuidade. Assim, o luto precisa ser sentido, a dor da separação e ou ausência. Logo, o luto é exterior ao humano e exerce coercitividade sobre o indivíduo. Sendo assim, este pequeno texto traz em si uma despedida para que eu aprenda a lidar com este vazio que (em parte) invade meu ser.


Logo, confesso que não tem sido fácil! A pouco tempo nos deixou Maria do Carmo (minha vó carminha) e agora sua irmã Severina (tia nina). O que fica? A lembrança! Mas qual? Evidentemente que todos nós como humanos acertamos e erramos...várias vezes na vida. No entanto, fica a lembraça de nordestinas fortes, guerreiras que se esforçaram ao máximo para criar e educar seus filhos. Fica a lembrança, de duas servas de Deus que confiavam no cuidado e provisão do Criador. Fica a lembrança dos abraços, afetos, risos e celebração da vida.


O símbolo do caixão por mais forte e doloroso que possa ser, não se compara ao símbolo do sorriso nos lábios, das mãos fortes, dos pés cansados, dos joelhos dobrados em oração...Assim, fica a lembrança do abraço acolhedor e do beijo dizendo-me: Deus abençoe, meu filho.


Fraternalmente, Rev. Cláudio Márcio

terça-feira, 5 de abril de 2011

Por Um Deus Mais Mundano...



Anda!
Quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão, da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar...

(Sal da Terra)

Temos vivido nestes dias momentos em que outro modelo de comunidade eclesiástica não só é possível como é urgente que se instaure em nossas relações sociais. Assim, a história humana passa necessariamente por dimensões entre os gênesis e os apocalipses, em um processo longo e contínuo de criação e recriação de si mesmo e do outro em uma relação de espanto e encantamento diante da vida, dos caminhos e descaminhos... Desta maneira, acredito que um Deus mais envolvido com o nosso cotidiano, em cada esquina e praças, feira e mercados, praias e ou clubes... tem muito mais sentido e lugar em nosso século XXI. Ou seja, O Deus do templo precisa também ser percebido e vivenciado nas ruas promovendo justiça social e dignidade humana. Logo, precisamos pensar que Deus é esse que invocamos o seu nome, e ou nós como cristãos estamos a serviço de quem?

O que devemos e podemos fazer é contribuir para a construção de espaços de relacionamentos sociais mais igualitários e acolhedores.

Urge então, que nosso relacionamento com o Cristo de Deus nos torne mais humanos e que a religião em nossa experiência seja para emancipação, para liberdade, para celebração, para a vida... Que junt@s possamos viver e proporcionar o Reino de Deus em todo lugar (um reino humanizador), um Deus que conhece e compreende meu caminhar e estende a mão para a caminhada dizendo-me: Tu és meu (minha)! Levanta-te e anda... Pois, caminhar é preciso e hoje farei grandes coisas não só no templo mais no mundo. Portanto, ficai atento (a)!

Partindo dessa mesma proposta foi que o aniversário da nossa IPU em Muritiba desenrolou-se. Tivemos momentos encantadores e desafiadores para nossa caminhada. Fizemos 25 anos de amor, serviço, partilha... Pensamos no tema: Mundo Palco da Glória de Deus e a divisa em Êxodo. 3.5 “Tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa”. Assim, a proposta era pensar na mundanização de Deus que necessariamente implicaria em outras posturas nossas no e com o mundo. Daí, a terra é santa neste momento não em uma perspectiva geográfica, e sim, porque ela é a pachamama (a mãe terra que nos dá o alimento, que nos dá a vida.

Desta forma, no sábado (02/04/11), tivemos uma noite de louvor com participação de uma banda da igreja do Evangelho Quadrangular (Gov. Mangabeira), cantores da Batista (Muritiba), saudação do moderador do PSVD (Rev. Dagoberto), saudação do representante da ICAR em Muritiba (Sinésio Galvão) e outros(as).
Já no domingo pela manhã, uma programação rica e provocativa nos fazia refletir sobre nossa missão neste chão. Novamente tivemos participação de outras igrejas de nossa cidade (o que alguns chamam de ecumenismo cristão). A reflexão ficou com o Pastor Jorge Nery (Feira de Santana), que impulsionado pelo Espírito nos falou do compromisso com o próximo, de quem Jesus de Nazaré ouviu, sentiu, falou e tocou a vida e clamor dos marginalizados e excluídos pelo poder político-religioso do seu tempo. Também nos falou que Deus transcende o templo e que Ele acontece nos lugares mais inusitados e que nem sempre se encontra nas igrejas (às vezes está do lado de fora querendo entrar (Apocalipse 3.20).

Semelhantemente, o texto bíblico de Êxodos mostra um Deus libertador que sente a dor e ouve o sofrimento das pessoas. Assim, quem é Javé? Quem é Moisés? Estávamos ressignificando nossa identidade enquanto cristãos e cristãs. Daí, após uma palavra de vida e libertação nos preparamos para a eucaristia... Um momento lindo! O Rev. João Dias conduziu o primeiro momento lembrando-nos de alguns poetas que falavam da saudade. A ceia é a hora da saudade dizia João Dias e a melhor maneira de matar a saudade é com um encontro. E, o pão e o vinho representam este encontro com Jesus de Nazaré. Nesse momento, eu chamei os pastores presentes para distribuição dos elementos, a saber: Pr. Jônatas (PIB em nossa cidade) Pr. Edvaldo (Evangelho Quadrangular nossa cidade) e o Pr. Jorge Nery (Feira de Santana). Sem dúvida alguma foi um momento encantador. Que maravilha!

Por fim, após alguns cânticos, avisos e abraços comemos um delicioso bolo e bebemos refrigerante. Assim, nos renovamos diante do Criador, da vida e enchemos o coração de esperança para juntos (as) construirmos este reino de Deus que é acolhedor e transformador de estruturas que oprimem e manipulam a vida e o bem comum.
Forte Abraço, obrigado à tod@s que participaram e até o próximo...


Rev. Cláudio Márcio

quinta-feira, 10 de março de 2011

DESENHANDO E PINTANDO CACHOEIRA ATRAVÉS DAS PALAVRAS...


Quanto mais eu sonho

com Cachoeira

mais amanheço em Nove York

Damário da Cruz

Ruas apertadas, casas antigas, trem na ponte, velhos nas praças, acarajé nas esquinas, filarmônicas centenárias, pesca e banho no rio, jogar bola e tomar cerveja no porto, ir ao culto, ao terreiro ou à missa no domingo, cuidar da casa e ir para o salão, ser conhecido pelo nome de seus pais, jogar capoeira e celebrar a vida...

Desemprego, violência, drogas, intolerância religiosa, racismo, analfabetismo, desigualdade social, corrupção, pedofilia, caos na saúde pública e esperança para que a vida seja celebrada...

Pensar na cidade heróica de Cachoeira é perceber sua força na pluralidade cultural, sua riqueza histórica, sua capacidade de se reinventar na sociedade. Esta última, marcada por suas regras, seus simbolismos, sua gente, suas conquistas e seu saudosismo.

Uma cidade banhada pelo Rio Paraguaçu no Recôncavo Baiano, que recebia navios de alto mar no princípio do século XX. Um importante centro da cultura afro-brasileira. Charmosa. Possui um acervo artístico impressionante, os museus, as poesias, as telas, os artistas... Seu fiel e eterno poeta Damário da Cruz! Criador do Pouso da Palavra - um apaixonado pela cidade. O pouso reúne diversas obras da literatura brasileira e mundial, seus livros, suas poesias e suas fotos além de cordéis e obras de arte. Com um quintal aconchegante e quinquilharias e camisetas pintadas à mão, o Pouso é um espaço de descanso e reflexão.

Seu sítio arquitetônico que contempla: a estação de trem, a ponte do caminho de ferro, a qual atravessa o rio e que chegou da Inglaterra em peças, depois de ter sido desviada do seu destino original, o Egito, negócio tratado pessoalmente pelo imperador D. Pedro II. Há também Igrejas riquíssimas algumas delas do barroco tardio, as antigas fábricas de charutos, que hoje se transformaram em salas de exposição de obras de arte e fotografias, movimentos populares, festas de largo, diversidade religiosa, festas juninas, samba de roda, forte reggae festejado em diversas partes do Estado brasileiro... E o que dizer de seus belos casarões e edifícios que testemunham ainda a opulência e a ostentação da riqueza colonial, que chegaram a Portugal sob a forma de palacetes e mansões e ainda resistem ao tempo, encantando a todos que passam?

Ou seja, Cachoeira é um misto de percepções e vivências entre belo e feio, caos e ordem, progressista e fundamentalista, guerra e paz, sagrado e profano, justo e injusto, moderno e clássico, riqueza e pobreza e tantas outras dicotomias que contam uma história de escravidão, mas acima de tudo de luta e resistência.

Por estar localizada às margens rio Paraguaçu, a cidade encontra-se em uma região privilegiada para o plantio. Desde o início, desenvolveu a cultura da cana-de-açúcar e do tabaco, produtos de exportação que impulsionaram o potencial econômico da cidade. O impulso ao progresso deu-se pelo privilegiado Porto da Cachoeira, que fazia a ligação entre o Recôncavo e o Sertão na união das riquezas: gado e ouro.

Termino assim com a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, importante manifestação sincrética religiosa da Bahia que une rituais católicos com elementos do culto afro-brasileiro e que atrai muitos turistas e pesquisadores da área. Surgiu nas senzalas, há cerca de 150 anos e tinha como objetivo de alforriar negros ou lhes dar fuga, mas com o fim da escravidão, as senhoras que participavam do movimento se aproximaram da Igreja, fundando a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. A festa é comemorada no período de 13 a 15 de agosto. Nesse período Cachoeira dança nas ruas com os orixás, carrega seus santos católicos e enfeita-se para esperar a Boa Morte passar.

Fraternalmente, Rev. Cláudio Márcio

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mesa da Fraternidade


“Estamos aqui, Senhor,
Cercando esta mesa comum.
Trazendo idéias diferentes,
Mas em Cristo somos um.”

(Campanha da Fraternidade)

Neste domingo (27/02/11), pela manhã, a nossa comunidade (IPU) em Muritiba, viveu uma experiência muito significativa. Pois, o discurso e a prática se encontraram gerando crescimento e ou amadurecimento de cada um de nós como participantes do Reino de Deus. Desta maneira, Rubem Alves (1979) sinaliza que “o Reino de Deus é o primeiro e mais fundamental dogma da fé cristã... Os profetas foram reformadores religiosos que exigiam ação social. Não discutiam sobre a santidade, de forma abstrata, mas social.”

Assim, a vocação profética nos faz entender que a igreja tem a obrigação, desenvolver pronunciamentos sobre as questões sociais, uma vez que o Reino de Deus propõe justiça e dignidade humana neste chão onde estamos inseridos. Pois, para Bonhoeffer, “o cristão é convocado a participar dos sofrimentos de Cristo”, isto é, “o cristão não tem o peso só dos seus problemas, mas também o da humanidade.”

Segundo Bourdieu (1974) “o poder sacerdotal se impõe dentro da comunidade religiosa”. Logo, este símbolo de partilha e diálogo entre religiosos à mesa da fraternidade, pode e deve ser desenvolvido como efetivação da paz e exercício contra toda intolerância religiosa.

Desta forma, eu e Paulo Roberto (amigo, irmão, cristão católico e estudante de Ciências Sociais da UFRB), falamos a partir da leitura das bem aventuranças e os desafios que o texto oferece à nossa caminhada. Logo, muitas inquietações surgiram e o desejo profundo de outro modelo de comunidade de Cristo que seja mais acolhedor e mais profético a favor da justiça, da vida e do bem comum.

Evidentemente que ao estudarmos sobre o Reino de Deus, sobre ser discípulo (sal e luz do mundo), sentimos a necessidade de assumirmos um compromisso muito maior com Jesus de Nazaré e sua mensagem de salvação-libertação ao humano contra todo domínio que oprime e marginaliza homens e mulheres no viver social.

Daí, a necessidade de dizermos SIM ao projeto de Jesus de Nazaré, e de entendermos que a espiritualidade passa obrigatoriamente pela dimensão da diaconia e, acima de tudo, da inquietação de nos lançarmos de uma forma mais radical como agentes de transformação social que traduzem a sua fé em práxis libertadora.

No entanto, acreditamos que este projeto se dá através do sopro do Espírito que motiva e acompanha o humano no mundo e o comprometimento (a garra, o esforço a cruz nossa de cada dia), somente assim é que outro paradigma de Igreja se torna possível. Nesse sentido, através da bíblia em diálogo com outras leituras e ou outras vivências, sentamos à mesa da fraternidade para semear esperança e reafirmar nosso compromisso com o Criador.

É importante ressaltar que para o sociólogo Dominico De Masi, “Entre duas pessoas existe a possibilidade de diálogo se suas idéias em parte coincidem e em parte não coincidem. Se discordarmos sobre tudo, não se pode discutir... Se, ao contrário, concordarmos sobre tudo, não vale a pena discutir.”

Na nossa reflexão parceiros como: Martin Luther King, D. Hélder, Frei Betto, Rev. João Dias, Rev. Jaime Wright, São Francisco De Assis, Che Guevara, Karl Marx, Gandhi e outros foram indispensáveis para o nosso diálogo na escola dominical. Deste modo, sei que estamos cumprindo o que Cristo nos ensinou em João 17.21 que nos diz: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.”

Sendo assim, esta experiência da mesa da fraternidade encheu o nosso coração de alegria e de esperança para juntos lutarmos pela construção do Reino de Deus que efetivamente traz uma nova ordem onde a vida está em primeiro plano, onde a lua novamente é dos namorados, onde os velhos curtirão as praças...como diz o texto de Zacarias 8.5 “E as ruas da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão.”

Dessa forma, o desafio que temos como cristãos é de repartimos o pão, de estendermos a mão, de ouvir, de falar, de participar de forma mais efetiva deste projeto do Reino, onde homem e mulher tornam-se mais humanos pelo fato de serem melhores a cada manhã, de serem gratos pela existência e de serem inquietos e teimosos enquanto não viverem outra realidade, outro modo de ser no mundo, outro modelo de viver a fé.

Ou seja, chega de religiosidade que mata e oprime. Chega de acúmulo de riquezas, chega de espiritualidade vazia... É tempo de esperança, é tempo de resssignificação de valores e ou modos de ver e viver no mundo, é tempo de sentarmos à mesa da fraternidade e comermos do pão e bebermos do vinho e ou se preferir (como nordestinos), comermos tapioca e bebermos licor.

Fraternalmente, Rev. Cláudio Márcio

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Até Quando?

“Vamos amigo lute
Vamos amigo lute
Vamos amigo lute
Vamos amigo ajude, se não
A gente acaba perdendo o que já conquistou
A gente acaba perdendo o que já conquistou

Vamos levante lute
Vamos levante ajude
Vamos levante grite
Vamos levante agora
Que a vida não parou
A vida não para aqui
A luta não acabou
E nem acabará
Só quando a liberdade raiar
Só quando a liberdade raiar”. (Edson Gomes)

Salta aos olhos de qualquer observador por mais desatento que seja o caos social em que nos encontramos, onde o modelo econômico capitalista-opressor tem excluído uma grande maioria de habitantes desta aldeia global, na luta de um lugar ao sol. Porém, sabe-se que humano e sociedade transformam-se a cada momento por interesses diversificados. Isto é, o humano é histórico e possui sua singularidade e ao mesmo tempo é “um ser aberto, em construção, inacabado” (Leonardo Boff).

Diante disso, a história nos mostra que muito sangue já foi derramado por motivos político-religioso-econômico de grupos que não abriam mão do poder que animalizava o humano em todas as dimensões de sua existência. Entretanto, quanto sangue ainda será derramado? Até quando?

Existem duas divindades gregas desafiadoras à nossa vivência cotidiana. A saber: Apolo (regra, ordem) e Dionísio (festa, celebração, desordem). Penso que essas duas dimensões são necessárias para o nosso viver social. Contudo, o que controlará as nossas ações nesta caminhada? Ou seja, como saberemos quando obedecermos ou não? Quando a desordem será necessária?

Acredito que a luta pela justiça e a dignidade humana devem trazer motivação a nossa caminhada. É certo que muitos perguntarão: o que é justiça e ou para quem? O que está sendo chamado de dignidade humana? No entanto, olho para o lado e me pergunto, até quando?

Em uma das canções de Nengo Vieira (cantor de reggae do recôncavo baiano), ele diz: “Roda tudo que ele poderia ter /fora o mundo que ele tem pra merecer /com o trabalho, com a dureza da servidão /sobrevive permanente na escravidão /perde a vida pra poder ganhar o pão /ninguém liga se ele vai mudar ou não”. Surge então a pergunta, quem está se preocupando com o marginalizado? Quem continua nas ruas empoeiradas e sem direito ao pão nosso de cada dia? Essa pessoas estão sendo vistas ou são invisíveis?

De um modo geral todos nós estamos muito ocupados com o trabalho, com a universidade, família, grupos sociais ( sindicato, igreja, escola...) que não podemos parar para atender o outro. Desta maneira, o texto bíblico que fala do bom samaritano traz uma contribuição significativa nesta discussão, onde um homem tinha sido assaltado e deixado no caminho com muitos ferimentos precisando de ajuda. Nesta narrativa, Jesus de Nazaré mostra que um sacerdote e um levita passam pelo samaritano e não o ajudam.

No entanto, na perspectiva da lei judaica eles estavam corretos. Pois, se tocassem naquele homem não poderiam cumprir suas obrigações no templo (estariam impuros). Porém, o Cristo lança um desafio: o que é mais importante, a vida ou a lei? De modo que o ferido e marginalizado foi acolhido por um samaritano que era inimigo dos judeus.

Logo, podemos nos perguntar: a lei não seria estabelecida para a manutenção da vida, da justiça e do bem comum? Não é novidade que em muitos casos a lei tem sido usada por interesse dos que estão no poder para oprimir e manipular o humano (sobretudo índios (as), negros (as), homossexuais, mulheres...). Daí, quem é capaz de escutar este clamor? Nengo continua: “Trabalhador com muito amor vive na paz de Deus /na luz do Senhor que alivia a dor que é forte demais /mas a pureza e a beleza do seu coração/é mais que tudo, que qualquer dinheiro da grande nação”

Desta maneira, fica o desafio diante de cada um de nós que vivemos “ nesta casa comum”(Boff), e renasce a pergunta: até quando? Políticos desviarão o dinheiro público e continurão no poder. Até quando? Crianças nas ruas a mendigar as migalhas dos detentores do capital. Até quando? Mulheres estarão em um lugar de submissão diante do homem, serão espancadas e receberão menos no mercado de trabalho. Até quando? Homens e mulheres por terem uma opção sexual diferenciada irão morrer e ou sofrerem violência físico-moral. Até quando? Os negros(as) estarão associados a imagem do diabólico, do desonesto, do malandro? Até quando? Nordestinos serão sinônimo de preguiçosos, mão de obra barata e analfabetos no sul e suldeste do Brasil. Até quando? Índios e quilombolas ficarão sem sua terra, sem chão. Até quando? Líderes religiosos abusaram de crianças e viverão a simonia. Até quando? Idosos não mais curtirão as praças, devido ao problema da violência e a marginalização dos cabelos brancos. Até quando? Militares não cumprirão o seu papel social e ficará difícil perceber quem é bandido e quem é policial. Até quando? Bandidos invadirão nossas casas, levarão o nosso dinheiro e ferirão nossa família. Até quando? Os traficantes ficarão mais poderosos e as mães dos usuários chorarão pelo seu filho que foram para um caminho que ...terá volta? Quantos ainda vão morrer? Quanta lágrima será derramada?

Uma coisa é certa: é evidente que as questões socias não são simples de serem melhoradas e ou transformadas. Porém, essas questões ainda incomodam você? Neste jogo da vida, neste campo de batalha, o humano e sua complexidade caminha pra onde?

Enquanto isso, Nengo continua: “ Roda, roda, roda ô pião/ na roda da vida”.

Diante disso, onde estão os messias do século XXI? Pois, pensar a diversidade humana é perceber antes de qualquer coisa que o humano é um ser social e que a questão ontológica necessariamente passa pela dimensão da relação com o outro. Ou seja, de uma forma ou de outra como afirmou Martin Luther King: “ o que afeta um diretamente, afeta a todos indiretamente.”

A história nos mostra que com a “descoberta” do novo mundo, o europeu depara-se com o diferente, com o desconhecido que era tratado como selvagem, imaturo e decaído. Desta forma, índios e negros eram tratados como objeto que proporcionava lucro aos seus senhores. Como eles não tinham alma tudo poderia ser feito com eles, desde a mão de obra, ao prazer sexual. Logo, a diversidade humana possui suas dimensões de encantamento e apavoramento.

Sendo assim, Soren Kierkegaard afirma: A vida só pode ser entendida olhando-se para trás. Mas só pode ser vivida olhando-se para frente. E, é diante das adversidades que todos nós somos desafiados à caminhada em favor da vida e do bem comum. Descobrindo formas de lutar contra o capitalismo que exclui e gera extrema pobreza para aqueles que buscam um lugar ao sol. Pois, segundo Foucault: “ Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.” Ou seja, agir na resistência, em uma mimese criativa sempre duvidando e questionando aquilo que está a nossa volta.

Penso que necessariamente vivemos um momento em que precisamos resgatar a figura do messias libertador e agitador das estruturas opressoras da nossa sociedade. No entanto, nos perguntamos? Eles ainda existem? Onde estão? Na academia ou nas esquinas do cotidiano? É claro que se torna relevante nos perguntarmos qual o nosso papel na sociedade?

Chegou o momento definitivamente de sairmos da caverna pela luz da razão e do conhecimento. O que necessitamos enquanto comunidade é de um novo olhar para nós mesmos e para o outro. Logo nos perguntarmos estamos a serviço de quem?

A história nos mostra paradigmas que nos desafiam e nos mostram que os sinais de metamorfose ocorrem a partir de uma e ou poucas pessoas. Vamos trazer a memória Antônio Conselheiro no sertão da Bahia no Brasil República, Zumbi dos palmares nos quilombos em Alagoas contra a escravidão, Moisés no antigo testamento que resgata os hebreus das mãos de faraó, Rosa Parks contra a segregação racial nos Estados Unidos, D. Helder Câmara contra a ditadura militar e a favor da justiça social, Irmã Dulce e sua espiritualidade do serviço e do cuidado com o próximo, Gandhi e a luta pacífica contra o imperialismo britânico na Índia, Bob Marley através de suas canções em prol da emancipação política e mental de seu povo e tantos outros e outras.

Desta forma, estamos diante de embates ontológicos onde nos perguntamos: é possível outro mundo? Outra realidade? Outro modelo econômico? Uma coisa fica muito clara diante de nossos olhos: é que precisamos resgatar essas figuras messiânicas em nosso século XXI. Vivemos um momento de crise onde necessitamos (clamamos), por mudanças, por justiça social. Somos desafiados a sentar-se a mesa comum para estabelecermos um diálogo com o outro que é diferente, mas, é a partir da relação com o outro que descobrimos quem “somos.”

Urge então, um novo olhar e uma nova práxis libertadora em defesa da vida em todas as suas dimensões. E que possamos ver homens e mulheres acreditarem em outro modelo (outra realidade), para suas jornadas. Que o nosso caminho em sua totalidade sinalize outras possibilidades e que a utópica sociedade alternativa nos desafie e encoraje à nossa missão e ou função social. Pois, como afirmou Mahatma Gandhi: “Não sou um utópico - sou um idealista prático”.

Fraternalmente, Rev. Cláudio Márcio